Por Eliecim Fidelis
A sessão do STF de terça-feira, 15/09, deixou um importante legado para reflexões. Não me arvoro a comentar as argumentações jurídicas, questões de ordem, polêmicas extrapautas ou a compostura de nenhum ministro. Mas, mesmo não sendo do ramo, acompanho os que alegam que a Suprema Corte, talvez por seus membros se verem acima dela própria, jamais havia pensado na possibilidade de julgamento de seus pares, o que comprova a ausência, em seus normativos, de qualquer rito processual diante do fato inédito que caiu no colo do colegiado.
O que nunca foi novidade, e que agora se escancara, é a forma radical como o capitalismo financeiro é capaz de minar transversalmente as instituições, do Oiapoque ao Chuí. Mas, embora a crise de credibilidade, integridade e autoridade alcance parte das instâncias dos Três Poderes; embora os escândalos de corrupção ou suspeição envolvam tribunais superiores pelo país inteiro; embora certas posições e decisões polêmicas levem a sociedade polarizada à descrença na imparcialidade dos magistrados; o tema principal, a meu ver, vai mais além, e extrapola inclusive o campo social e político universal, enveredando-se por camadas profundas da psique individual e coletiva. E, assim, escapam a cada dia restos maléficos da caixa de Pandora, e as derradeiras esperanças esvaem-se entre nuvens cinzentas; esmigalham-se aos poucos os pilares clássicos da dignidade humana, talvez por terem sido desde sempre ancorados em frágeis alavancas.
A Justiça, a verdade e a dignidade cedem espaço à retórica e à hipocrisia. Mas esperar que tenhamos uma sociedade diferente disso seria fugir do que foi delineado para a existência humana, cuja estrutura não inclui, de logo, em seu tecido intrínseco, a matéria prima da imparcialidade, a dignidade e a oblatividade. Se tais predicados às vezes aparecem, servem normalmente para esconder as verdadeiras intenções não declaradas, basta lhes cutucar as entranhas.
Numa referência a Santo Agostinho, em Confissões X, o psicanalista francês Jacques Lacan intitulou o capítulo de um de seus seminários de Verdade, irmã de gozo. O religioso aborda a busca da verdade como forma de alcançar a alegria divina, o gozo espiritual. Lacan desloca o sentido da citação agostiniana para falar da relação entre a verdade e o gozo na psicanálise. Mas o que estamos testemunhando é que o uso do saber e da verdade, em vez do gozo religioso, escancara sua apropriação em proveito próprio. A verdade, enfim, só lhes serve, com ou sem toga, quando confirma aquilo que eles próprios amam como verdadeiro, ainda que seja o que engana e trapaça a todos. Enfim, e ainda segundo Agostinho: “Amam-na se ela os ilumina, odeiam-na quando ela os contradiz”.
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Psicanalista e escritor, membro do Espaço Moebius Psicanálise – fidelis.eli@gmail.com

