Planos Soteropolitanos da Roma Negra

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Por Marcio Luis Ferreira Nascimento

Todo plano inclinado consiste numa superfície lisa que forma um ângulo com a horizontal e visa facilitar a elevação de objetos ao reduzir a força necessária para movê-los verticalmente. Tais planos são máquinas bastante simples, elaborados na aurora da humanidade, e cuja tecnologia foi aprimorada (até onde se sabe) primeiro com os antigos egípcios, em seguida pelos gregos e depois romanos, ao mitigar ao máximo o atrito de objetos deslocando-os para cima ou para baixo numa rampa. A redução da força a ser aplicada é reduzida ao custo de um aumento na distância pela qual todo objeto tem de ser deslocado.

Um dos primeiros grandes projetos de engenharia brasileiros foi desenvolvido logo após seu descobrimento, ainda no inicio do século XVI, tendo como base o princípio do plano inclinado na hoje conhecida como Roma Negra pelos primeiros cidadãos nascidos nesta cidade, e conhecidos por soteropolitanos(as), que quer dizer, em grego, nascidos(as) na cidade do Salvador.

Credita-se ao polímata grego Arquimedes de Siracusa (287 – 212 a.C.) o registro dos primeiros guindastes e elevadores por volta do ano 236 a.C., que funcionavam por meio de tração animal ou ainda escrava, alguns destes baseados em planos inclinados. Tal crédito deve-se ao arquiteto romano Vitrúvio (c. 70 a.C. – c. 15 d.C.), este também célebre ao propor modificações em tais dispositivos arquimedianos.

Durante a fundação da primeira capital do Brasil colonial em 1549, que já contava com poucos milhares de pessoas, a elevada cidade-fortaleza de São Salvador da Bahia de Todos os Santos foi situada numa acentuada encosta de quase 80 metros, a oferecer uma proteção natural aos ataques tanto dos nativos bravos índios como de invasores estrangeiros. Cosmopolita desde seu estabelecimento, Salvador sempre foi estratégica por ter sido o porto mais importante do hemisfério sul até o Séc. XIX, e por isso desejada por diversas nações. E difícil de ser invadida, como de fato ocorreu algumas vezes conforme os registros históricos.

A estruturação da cidade foi planejada desde o início em dois níveis onde, na cidade alta, predominava a administração civil e religiosa, além das moradias, numa disposição de quarteirões quase retangulares; já a dita cidade baixa, tinha notadamente característica portuária, portando comercial. O traçado das ruas e ladeiras, bem como um perímetro de muralhas, foi feito de modo a seguir as características topográficas e a segurança dos seus moradores(as). A fartura de água proveniente de rios e córregos em vales próximos também serviu de escolha e proteção no lado oposto à escarpa.

Parar ascender desde o antigo Cais até a Cidade Alta, diversos caminhos foram trilhados, como a célebre Ladeira da Preguiça, que fica na região, próxima da primeira ermida que deu lugar a Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, e recebeu este nome por ser muito longa e íngreme, provocando muitas das vezes paradas ao longo do caminho aos seus transeuntes. Boa parte das mercadorias precisavam ser transportadas em carretas puxadas por bois ou mesmo penosamente no lombo dos escravos nas primeiras décadas desta importante via de acesso.

Particularmente, desde 1610 há registros de engenhosos aparatos de carga na íngreme cidade do Salvador, famosa por sua falha geológica, como os Guindastes da Fazenda e o dos Padres da Companhia de Jesus, a içar mercadorias nas encostas que levam ao monte da cidade alta, no Pelourinho, estes movidos por tração animal ou escrava. Ao menos dois deles localizavam-se próximo de onde se situa hoje o Elevador Lacerda e a atual praça, conforme deixam claro a gravura de 1627 do pintor alemão Abraham Hogenberg (1578 – 1653), que consta hoje no acervo do Instituto Sociocultural Flávia Abubakir, da administradora e empresária brasileira Flávia Barretto de Araújo Lagoeiro Abubakir (n. 1992).

Em algum momento, por volta de 1632, o guindaste mais novo foi arrematado pelo avô do advogado e primeiro poeta brasileiro, Gregório de Mattos e Guerra (1636 – 1696), o ferreiro e mestre de obras português Pedro Gonçalves de Mattos (? – c. 1659), egresso da Vila de Guimarães que desembarcou na Bahia em 1626 já viúvo de Margarida Álvarez de Mattos (? – c. 1625) e cristão-velho. Pedro de Mattos trouxe seu jovem filho, Gregório de Mattos (c. 1615 – ?), e ambos se casaram com viúva e filha de mesmo nome: Maria da Guerra I (? – c. 1659, também egressa da Vila de Guimarães) e Maria da Guerra II (? – c. 1662), herdando desta nova família fazendas e se tornando ricos senhores de engenhos. Particularmente, Pedro de Mattos enriqueceu rapidamente com o transporte de cargas entre as cidades Alta e Baixa.

Já um outro guindaste foi descrito pelo navegador francês François Pyrard (1578 – 1621), e ficava próximo de onde hoje se encontra o Plano Inclinado Gonçalves. Gravuras de 1624 como a dos desenhistas e cartógrafos holandeses Claes Janszoon Visscher (1587 – 1652) e Hessel Gerritsz (c. 1581 – 1632) sobre “S. Salvador. Baya de Todos os Sanctos”, não deixam dúvidas sobre a presença de alguns destes extraordinários maquinários.

A pena ferina do antropofágico poeta barroco da boca de brasa gregoriano, neto de ferreiro pobre que se tornou rico em terras, engenhos de açúcar e engenhosa máquina mercante de potente guindaste reflete um artista complexo, provocador, contraditório e profundamente humano. Barroco, portanto complexo e contraditório, sua obra é marcada pelo contraste provocador entre o eruditismo e a oralidade, entre a religiosidade e a sensualidade, a sátira e o louvor, notadamente pelo excesso e pelo uso engenhoso das figuras de linguagem e seus trocadilhos. Amante ardoroso e pecador penitente, conheceu a riqueza e a pobreza, a liberdade e o degredo.

Gregório provem do grego “Γρηγόριος” (Grēgórios), a significar vigilante. Assim era o zeloso poeta: um arguto observador dos altos e baixos da vida, como a transitar num plano inclinado de sua cidade, cantada em prosa e verso, a carrear mercadorias e almas para cima e para baixo todos os santos dias diante da Bahia de Todos os Santos.

Segunda Impaciência do PoetaGregório de Mattos1 Cresce o desejo, falta o sofrimento,Sofrendo morro, morro desejando,Por uma, e outra parte estou penandoSem poder dar alívio a meu tormento. Se quero declarar meu pensamento,Está-me um gesto grave acobardando,E tenho por melhor morrer calando,Que fiar-me de um néscio atrevimento. Quem pretende alcançar, espera, e cala,Porque quem temerário se abalança,Muitas vezes o amor o desiguala. Pois se aquele, que espera se alcança,Quero ter por melhor morrer sem fala,Que falando, perder toda esperança.Definição do Amor (Trechos)Gregório de Mattos1 Mandai-me Senhores, hojeque em breves rasgos descrevado Amor a ilustre prosápia,e de Cupido as proezas.Dizem que de clara escuma,dizem que do mar nascera,que pegam debaixo d’águaas armas que o amor carrega. O arco talvez de pipa,a seta talvez esteira,despido como um maroto,cego como uma toupeira E isto é o Amor? É um corno.Isto é o Cupido? Má peça.Aconselho que não compremAinda que lhe achem venda O Amor é finalmenteum embaraço de pernas,uma união de barrigas,um breve tremor de artérias. Uma confusão de bocas,uma batalha de veias,um reboliço de ancas,quem diz outra coisa, é besta.

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Professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química da UFBA e membro do Instituto Politécnico da Bahia


[1] In: MATTOS, G.  Poemas Escolhidos. Seleção, Prefácio e Notas de José Miguel Wisnik. Editora Companhia das Letras, São Paulo (2010) 357 p.