POR QUE LULA MENTE TANTO?

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Por Antônio Lins

O Brasil é um país tão extraordinário que inventou uma modalidade política que deveria entrar nas Olimpíadas: a mentira de resistência.

O sujeito fala uma coisa hoje, outra amanhã, desmente depois de amanhã e, no quarto dia, aparece alguém explicando que ele não disse exatamente aquilo que todo mundo ouviu.

É a chamada mentira com direito a recurso.

Lula é um craque nessa modalidade.

Fala com tamanha convicção que, às vezes, a gente começa a desconfiar da própria memória.

— Mas ele não disse isso?

— Disse.

— Então?

— Então não era bem isso.

Ah, bom!

Ainda bem que temos os intérpretes oficiais do pensamento presidencial. Porque entender o que Lula diz já exige curso superior, pós-graduação e, em alguns casos, consulta ao médium.

O problema é que Lula fala tanto que, se a verdade tivesse pernas, já estaria pedindo aposentadoria por invalidez.

E tem mais: político brasileiro descobriu uma coisa maravilhosa.

A promessa é gratuita.

Pode prometer estrada, emprego, prosperidade, felicidade, picanha, churrasco e até um Brasil com estacionamento para elefante.

Depois, se não entregar, basta dizer:

— Estamos trabalhando.

Essa frase é extraordinária.

“Estamos trabalhando” significa tudo e não significa nada.

Pode ser que estejam trabalhando.

Pode ser que estejam pensando em trabalhar.

Pode ser que alguém esteja procurando quem deveria trabalhar.

Ou pode ser simplesmente que o governo esteja trabalhando para explicar por que não trabalhou.

E o eleitor?

O eleitor fica trabalhando para pagar imposto.

Lula também tem uma relação curiosa com os números.

Número, para político, é igual a opinião: cada um tem o seu.

Se o governo gastou muito:

— É investimento!

Se gastou mais ainda:

— É investimento social!

Se a conta ficou enorme:

— É investimento para o futuro!

E se alguém perguntar quem vai pagar?

Silêncio.

Nesse momento entra o Ministério da Fazenda, com uma calculadora numa mão e um tranquilizante na outra.

Mas não sejamos injustos.

Lula não está sozinho.

Brasília está cheia de políticos que tratam a verdade como tratam promessa de campanha: com enorme carinho antes da eleição e absoluto esquecimento depois.

A diferença é que Lula tem uma vantagem competitiva: fala muito.

E quem fala muito tem uma enorme chance de dizer muita coisa.

Inclusive alguma verdade.

É por isso que o cidadão deveria desenvolver uma nova ciência:

a lulometria.

Ou seja: ouvir o discurso e depois medir a distância entre a fala e a realidade.

Quanto maior a distância, maior a lulometria.

O aparelho poderia ser instalado em Brasília.

Quando o político disser:

— O povo está feliz!

A máquina consulta o supermercado.

Quando disser:

— A economia vai muito bem!

A máquina consulta o bolso.

Quando disser:

— O Brasil está melhor!

A máquina consulta o cidadão.

E, se o cidadão começar a rir, acende uma luz vermelha.

Não é oposição.

É estatística.

No fundo, a questão não é saber se Lula mente mais ou menos que outros políticos.

A pergunta importante é outra:

Por que nós, brasileiros, continuamos acreditando em político que promete o paraíso e entrega uma fila?

Essa talvez seja a verdadeira tragédia nacional.

O político mente.

O eleitor acredita.

Depois o eleitor descobre.

E, quatro anos mais tarde, acredita novamente.

Isso não é democracia.

É reprise.

E o pior: sem direito a mudar de canal.

Por isso, quando Lula falar, não precisa desligar a televisão.

Também não precisa bater panela.

Nem quebrar o aparelho.

Faça apenas uma coisa:

anote.

Depois confira.

Porque, neste país, a verdade pode até demorar.

Mas a conta chega pontualmente.

E essa, meus amigos, não mente nunca.
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Escritor, jornalista, compositor e dramaturgo