Por Mayla Araújo
No filme Pequenas Cartas Obscenas, o que se apresenta não é apenas uma história, mas um campo de tensões onde diferentes formas de viver o feminino entram em conflito. Entre o que se ajusta, o que transborda e o que tenta organizar, revela-se uma dinâmica marcada por repressão, projeção e busca por reconhecimento.
Há uma figura que ocupa o lugar da adequação, sustentada por uma lógica de controle que, muitas vezes, disfarça-se de cuidado. Seus afetos, desejos e impulsos não encontram espaço para existir. Mas aquilo que é reprimido não desaparece. Apenas encontra outros caminhos.
Aquilo que não pode ser dito encontra outras vias. A escrita surge como expressão indireta de conteúdos intensos, como raiva, angústia e desejo, que nunca puderam ser nomeados. O que se denomina como ‘obscenidade’, nesse sentido, deixa de ser apenas choque ou provocação. Ela pode ser entendida como uma tentativa de dar forma ao que permaneceu silenciado por tempo demais. Quantas vezes aquilo que aparece como exagero, inadequação ou descontrole é, na verdade, sofrimento sem linguagem? Quando não conseguimos reconhecer e acolher certas partes de nós mesmos, elas acabam encontrando saídas não convencionais, mas ainda assim profundamente humanas.
Esse movimento não acontece apenas no plano individual. O que foge às normas costuma ser rapidamente apontado como excesso. A mulher que vive de forma mais livre, que fala o que pensa e ocupa espaços historicamente negados a ela, torna-se alvo fácil de suspeitas. Julga-se antes de compreender. Condena-se antes de escutar. Muitas vezes, aquilo que mais incomoda no outro é justamente o que não nos autorizamos a reconhecer em nós mesmos.
Nesse cenário, as três figuras do filme podem ser lidas como expressões de lugares ainda muito presentes na contemporaneidade: a mulher que se esforça para corresponder às expectativas, a mulher que é julgada por não caber nelas e a mulher que precisa provar repetidamente seu valor para ser levada a sério. Mais do que personagens, elas revelam o quanto ainda temos dificuldade em acolher a complexidade do feminino sem reduzi-lo a rótulos, oposições e lugares previamente definidos.
Talvez essa seja uma das reflexões mais potentes de Pequenas Cartas Obscenas: o que acontece quando não há espaço para sentir, desejar, discordar ou existir para além dos papéis que nos foram atribuídos? Porque aquilo que é silenciado não desaparece. Mais cedo ou mais tarde, encontra uma forma de retornar. E talvez o verdadeiro desafio não seja silenciá-lo novamente, mas escutá-lo com mais curiosidade, menos julgamento e mais humanidade.
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Psicóloga da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria
