Por Elieser César
É assim que se faz: reli Guerra e Paz.
Se ler as mais de novecentas páginas do épico de Leon Tolstoi já é um desafio, reler é algo mais raro, principalmente diante do tipo de letra miúda da minha edição da Editora Itatiaia. Para muitos é uma leitura arrastada, como a marcha de um exército que não dá fogo, muito devido às descrições minuciosos de estratégias militares e até às elocubrações religiosas do místico Tolstoi. Porém é recomfortante travar esta batalha, em que se descortina a alma do povo russo, bem mais nítida do que nos compêndios da História.
A Ilíada Russa, como o próprio autor definiu, começa com um retrato da nobreza eslava no reinado do Czar Alexandre I. É um desfile de príncipes, princesas, condes e condessas e outros potentados e dignitários da corte, saraus e bailes; intrigas e fofocas de salões e matrimônios costurados com fios de ouro nos palacetes, até chegar ao cerne da história: a invasão, em 1812, da Rússia pelo exército de Napoleão Bonaparte, que se revelaria uma manobra desastrosa que destroçou as tropas francesas e representou o começo da derrocada do general e usurpador autocoroado Imperador da França.
Guerra e Paz alterna cenas dos campos de batalha (o conflito armado) e dos costumes de Moscou e São Petersburgo (a paz civil), onde uma nobreza parasitária vive da exploração dos servos, pouco mais do que escravos. É um desfile de personagens históricos – como o próprio Alexandre I, Napoleão Bonaparte, o Marechal Murat e o sereníssimo Kutuzov, General-Chefe do exército russo – e fictícios.
Dentre estes últimos destacam-se duas figuras que são encarnações do próprio Tolstoi na fase feliz dos primeiros anos de seu casamento com Sofia Bers: o Príncipe André Bolkonski, que simboliza a coragem patriótica e moral nos campos de batalha e o Conde Pedro Bezukhov, protótipo da bondade à toda prova e da integridade humana.
Ah, como esquecer a bela e doce Natacha, uma das maiores criações femininas de Tolstoi, por quem muitos homens terminam se apaixonando, inclusive André e Pedro? E o que dizer da infiel e esplendorosa Helena, uma espécie de Ava Garner enfiada nas páginas do épico? A triste e sofrida Princesa Maria, irmã de André, tiranazada pelo pai e como que fadada a morrer solteirona, é outra criatura comovente. Há também a abnegada Sônia em seu amor impossível por Nicolau Rostov e a melancólica Princesa Lisa, esposa do Príncipe André. Como em Balzac, temos uma rica e sedutora galeria de personagens femininos.
Do lado dos homens em guerra sobressaem-se a coragem e o destemor de Nicolau Rostov, a empolgação juvenil do irmão caçula Pétia (diminutivo de Pedro), imolado no campo de batalha, do intéprido Denissov, à frente de seu temível batalhão de cossacos do Don; o destemido e pouco confiável Dolokhov, o arrivista Boris, filho da interesseira Ana Mikhailovna, e o galante Anatólio Kuraguin.
SANGUE NAS ESTEPES
A primeira grande batalha descrita no romance é a de Austerlitz, em 1805, na qual Napoleão bate os exércitos da Áustria e da Rússia, numa vitória retumbante que sacode os alicerces da geopolítica europeia da época. Naquele combate impiedos um jovem oficial russo, ferido ao carregar corajosamente um estandarte entre uma saraivada de balas, comove pela coragem o próprio Napoleão. Trata-se do Príncipe André.
Seguem-se anos de paz e tranquilidade até que, 1812, Bonaparte resolve invadir a Rússia e marchar até Moscou, numa campanha desastrosa. A primeira e épica batalha, verdadeira carnificina, que dizima boa parte do dois exércitos é travada na localidade de Borondino, em Smolensk.
Os franceses saem aparentemente vencedores, mas é um vitória de Pirro pelas enormes perdas no campo de batalha. Em menor número, o exército russo recua. É um recuo tático. Os franceses prosseguem a marcha até Moscou. Encontram a cidade abandonada, incendiada, e sem víveres para as tropas invasoras. Por isso, resolvem bater em retirada pela estrada de Smolensk. Dentre os poucos habitantes que ficaram na cidade está Pedro Bezukhov, que acalentava um gesto heroico, mas acaba feito prisioneiro do inimigo.
O recuo dos franceses foi um erro fatal. Com superioridade numérica, Napoleão poderia ter perseguido e aniquilado o exército russo, mas preferiu a retirada sem dar combate ao inimigo. Para os russos, ferido em seus brios pela invasão do solo sagrado da Rússia, foi uma guerra patriótica, como viria ser também mais de um século depois, em Stalingrado durante a invasão do exército nazista. Enquanto os franceses recuam assustados, os russos deflagram uma guerra de guerrilha, atacando o inimigo pelos flancos, principalmente com a carga da cavalaria dos cossacos, causando enormes estragos.
A Rússia está salva. A guerra termina e a paz volta a reinar. Mas não para sempre, como a história registra nos dois lados da moeda da história das Nações: a guerra e a paz.
(Foto: Maria Cecília)

