‘Senhor das Moscas’, e a dualidade civilizatória

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Por Eliecim Fidelis

Desde os primórdios da humanidade, filósofos, psicólogos, pensadores e religiosos discutem sobre a intrigada tarefa de compreender a natureza humana. As versões principais da discussão centram-se, em geral, na dualidade entre o bem e o mal. Tomando como ponto de partida o mito bíblico, pode-se demarcar essa oposição a partir do momento em que a serpente lançou sobre Eva o reflexo do espelho de Lúcifer; quando o homem se sentiu impedido de desfilar despido, no Éden; quando, expulsos do paraíso, Abel e Caim foram julgados em função dos sacrifícios que ofereceram ao Senhor.

Na Idade Moderna, meados do século XVII, o pensamento dualista será revisitado de diferentes formas pela filosofia. Thomas Hobbes (1588-1679) percebe o homem como o lobo de si mesmo; um ser egoísta e cruel que, pela própria sobrevivência, é capaz de agir de modo selvagem. Para o filósofo inglês, considerado o primeiro contratualista da história, diante do “estado de natureza”, inerente à condição humana, torna-se imprescindível a ação do Estado absoluto, o Leviatã, para, através de um “contrato social”, instituir a ordem e evitar a guerra de todos contra todos.  

Um século depois, com o pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), vê-se invertida a lógica hobbesiana. O iluminista suíço vê o ser humano como um ser naturalmente bom, que nasce livre e em harmonia com a natureza. Aquilo que o corrompe, que vem de encontro ao sossego humano primitivo, seria a sociedade, a competição, a propriedade privada.

No século XX, a psicanálise reabre o debate num patamar diferenciado. Não se trata de classificar o homem como um ser necessariamente bom ou mal. A reflexão freudiana parte da condição de desamparo inerente à natureza humana, e da constatação do fracasso do discurso da ciência moderna, na medida em que o progresso da civilização se revela equivocado e não se traduz em maior bem-estar para o gênero humano.

Já o enredo do livro Senhor das moscas, de William Golding, publicado vinte e quatro anos depois de O mal-estar na civilização, pode ser tomado como um laboratório vivo das concepções filosóficas e freudiana. O escritor inglês parece pôr à prova os meandros da primitiva natureza humana. O tempo lá fora é beligerante, mas naquela ilha seus novos habitantes são crianças livres. Podem construir para si uma nova civilização, independente e feliz. Mas, em vez disso, o grupo acaba encenando o mesmo drama psíquico da humanidade. O Ego Ralph não dá conta do seu papel de conciliador, não consegue preservar o equilíbrio entre as instâncias. Instala-se a loucura: a fera não está fora, não vem da voz de Belzebu, nem da cabeça de porco em decomposição. A fera vem de cada um; está dentro de cada um.
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Psicanalista e escritor, membro do Espaço Moebius Psicanálise – fidelis.eli@gmail.com