Vice e nada são as mesmas coisas

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Por Victor Pinto

A frase título deste artigo é repetida há décadas nos corredores da política. Serve, principalmente, para diminuir a importância de quem ocupa o posto de número dois na hierarquia do poder. Mas a experiência da política baiana mostra que a realidade é um pouco mais complexa do que sugere esse ditado.

Desde a redemocratização, passando uma lupa na história, a vice-governadoria da Bahia quase sempre foi ocupada por figuras com densidade política e papel relevante na engrenagem do poder. Em muitos casos, o vice representa um setor político específico, ajuda a equilibrar forças dentro da coalizão governista ou funciona como ponte com regiões do estado.

Nilo Coelho, por exemplo, foi vice de Waldir Pires e acabou assumindo o governo após a renúncia do titular para, inclusive, ser vice da majoritária presidencial do MDB com Ulysses Guimarães na cabeça da chapa. Outro exemplo é o de Paulo Souto ocupou a vice de Antônio Carlos Magalhães antes de se consolidar como governador e uma das principais lideranças do carlismo. César Borges também percorreu caminho semelhante. Mais recentemente, Otto Alencar e João Leão desempenharam papéis importantes na articulação política dos governos dos quais fizeram parte.

Houve, claro, nomes menos expressivos, que passaram pelo cargo sem grande protagonismo. Edmundo Pereira, Eraldo Tinôco e Rosalvo Barbosa Romeo são exemplos de vices que não deixaram marcas mais profundas no tabuleiro político estadual. Ainda assim, mesmo nesses casos, o cargo serviu para moldar contextos e representar situações.

É verdade que um vice sem caneta de secretaria tende a ter menos força no cotidiano do governo. A ausência de uma estrutura administrativa limita sua capacidade de atuação, contudo, isso não significa irrelevância. Muitas vezes, o vice exerce um papel silencioso, porém central, na interlocução com partidos, lideranças regionais e setores econômicos. Pelo menos é isso que se espera de um vice ideal. Serve para vice-presidentes ou vice-prefeitos também.

Outro aspecto importante é o comportamento: vice que sabe seu lugar, respeita a governabilidade e não vive ensaiando movimentos de ruptura costuma ser ainda mais valorizado dentro do próprio campo político. Na Bahia, aliás, não há histórico recente de vice-governador envolvido em tramas golpistas ou conspirações contra o titular. Pelo contrário. Quando assumiram o governo, figuras como Nilo Coelho, Paulo Souto, César Borges e Otto Alencar garantiram, a seu modo, a continuidade política dos grupos que representavam.

Nesse contexto, o debate sobre a vice voltou ao centro do tabuleiro na disputa estadual. Os dois campos políticos ainda não fecharam suas escolhas. ACM Neto mantém a vaga em aberto e sinaliza que busca um nome do interior, capaz de ampliar sua capilaridade regional. Um adendo: só não será mais Zé Ronaldo que já descartou deixar a prefeitura de Feira de Santana, mas que seria o seu nome ideal.

Já o governador Jerônimo Rodrigues enfrenta um dilema: manter Geraldo Júnior, seu vice eleito em 2022, ou recalibrar a chapa com outro perfil político. A situação do emedebista, aliás, simboliza bem a complexidade do tema. Sua escolha em 2022 teve peso estratégico, sobretudo na tentativa de ampliar pontes políticas em Salvador e representar a volta do MDB para a base do grupo petista. Agora, o cálculo político passa a ser diferente e pode resultar na entrega da cadeira para outro partido aliado que resulte em novos dividendos necessários para Jerônimo.

No fim das contas, a velha frase da política, título destes singelos escritos, rende efeito retórico, mas a história da Bahia mostra que vice e nada dificilmente são a mesma coisa. E em muitos momentos, o vice é justamente a peça que garante o equilíbrio que falta no tabuleiro. A conferir.