Por Alice Rodrigues
O brincar nunca foi apenas passatempo. Desde cedo, ocupa um lugar decisivo na constituição psíquica: é no jogo que a criança aprende a lidar com limites, simboliza conflitos e desenvolve a capacidade de suportar frustrações sem romper com o mundo. Brincar é, em essência, um ensaio da vida, uma forma de experimentar o imprevisível em condições seguras, mediadas pela presença do outro.
Durante muito tempo, essa experiência esteve ancorada em contornos claros. Havia um momento para começar e terminar, um espaço delimitado que separava o jogo da vida cotidiana e regras compartilhadas que organizavam a convivência. Esses elementos não eram acessórios; eram estruturantes. Introduziam espera, alternância e negociação, além de inscrever a noção de uma lei comum à qual todos se submetem — condição fundamental para a vida em sociedade.
Hoje, no entanto, esse cenário se transforma de maneira significativa. O jogo, especialmente o de aposta, deslocou-se desses espaços coletivos para um ambiente contínuo, individualizado e permanentemente acessível: o celular. Já não há intervalo, preparação ou contexto específico. A aposta se torna imediata, disponível a qualquer hora e em qualquer lugar, dissolvendo as fronteiras que antes organizavam a experiência.
A questão central não reside no jogo em si, mas na função psíquica que ele passa a desempenhar. Quando é utilizado para aliviar a ansiedade, contornar dificuldades financeiras ou evitar frustrações, deixa de ser lazer e se converte em refúgio. E refúgios constantes, ao invés de proteger, tendem a aprisionar.
As plataformas digitais intensificam esse processo ao operar com estímulos visuais, recompensas rápidas e promessas de ganho fácil. Cria-se um ciclo de expectativa e repetição sustentado pelo “quase ganhar”, que mantém o jogador engajado enquanto o cérebro reforça a busca por nova recompensa. Paralelamente, a naturalização das apostas avança: publicidade massiva, patrocínios esportivos e influenciadores constroem uma imagem simplificada do ato de apostar, raramente acompanhada de seus riscos.
As consequências já são visíveis: endividamento, conflitos familiares, queda de rendimento e impactos na saúde mental, como ansiedade e depressão. Em casos mais graves, o sofrimento se intensifica e compromete diferentes dimensões da vida.
Mais do que uma questão de escolha individual, o avanço das apostas digitais revela uma transformação silenciosa na forma como lidamos com o lazer, o limite e a espera. Se o brincar ensina a sustentar o intervalo entre querer e obter, a lógica da aposta imediata faz justamente o oposto. Talvez o desafio contemporâneo não seja abandonar o jogo, mas reaprender a jogar sem abrir mão daquilo que, desde o início, torna a experiência humana possível.
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Psicóloga da Holiste Psiquaitria / @holistepsiquiatria


