Xavier Marques: ficção na Bahia no Século XIX

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Por Gilfrancisco

A vida literária e social da Bahia do século XIX, segundo centro urbano e cultural do país, não acompanhou a evolução da ficção brasileira, por ser o Rio de Janeiro pólo de atração cultural e literária do Brasil, desde a segunda década daquele século. Se teve essa participação foi limitadíssima; manifestações ficcionais em todas as décadas do século XIX. Com novelas e romances conhecidos como precursores, ponto de partida para sua contribuição a prosa de ficção brasileira, num período de singular importância na evolução das diretrizes literárias nacionais. Por ser o autor Rozendo Muniz Barreto, baiano, chegou-se a incluir Favos e Travos (1892) como ficção baiana, apesar de tratar-se do mais antigo romance baiano, mas este tem ação e personagem representados na paisagem urbana do Rio de Janeiro imperial. A ficção na Bahia do século XIX, se revela somente depois de 1880, com a obra de Xavier Marques, além de outras de menor importância literária.

            Poeta, contista e novelista, Francisco Xavier Ferreira Marques, nasceu a 3 de dezembro de 1861 na Ilha de Itaparica (BA), sendo o primeiro dos três filhos de Vicente Avelino Ferreira Marques, proprietário de um barco que transportava passageiros e cargas entre Salvador e a Ilha. Sendo que mais tarde estabeleceu-se comerciante em Itaparica, e Florinda Agripina Ferreira Marques, que faleceu quando este tinha apenas seis anos. Criado e educado pelos tios maternos, apesar de ter somente concluído o curso primário. Sua vasta formação intelectual poderia ser considerada de nível universitário, em sua cidade natal, iniciou suas experiências literárias num jornal local.

            Ao completar vinte um anos, fixa residência em Salvador, onde orientado pela amizade do cônego Francisco Bernardino de Souza, passou a lecionar em escolas primárias, mas seu grande desejo era ingressar no jornalismo e isso só acontece em 1885 pouco depois de ter publicado seu primeiro livro de versos, aquando ingressa no Jornal de Notícias, de onde foi mais tarde redator. Daí em diante trabalhará em diversos jornais baianos, e a partir de 1891, como redator político, dando-lhe acesso a cargos públicos: primeiro como oficial da Câmara dos Deputados, Deputado Estadual (1915-1921) e depois Deputado Federal (1921-1924).

            Em 1889 a 7 de dezembro, casa-se com D. Georgina Coelho de Menezes  Dórea e dois anos depois ingressa no Diário da Bahia, sendo uma das fases em que trabalha intensamente no jornalismo, de onde tira seu sustento e do cargo de oficial do qual foi aposentado antes de ser eleito deputado, graças a influência de J. J. Seabra de quem era fiel seguidor político e diretor do jornal de seu Partido, O Democrata.

            Em 1905, Xavier Marques tenta a eleição para a Academia Brasileira de Letras, mas recebe apenas o voto de Machado de Assis e no ano seguinte é homenageado pela Sociedade Literária Baiana, Nova Cruzada, que promoverá em 1909 nova tentativa para elege-lo. Dois anos depois, a ABL confere prêmio ao livro  O Sargento Pedro,  romance histórico de contribuição cívica e em 1917, Xavier Marques torna-se um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia e finalmente é eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 28 na vaga e Inglês de Souza.

            Eleito deputado no ano seguinte, Xavier permanecerá no Rio de Janeiro por três anos, para retornar à Bahia em 1924, aos 63 anos e coincide com o início de seu declínio pessoal e literário. Colaborando eventualmente, para o jornal A Tarde e outros da capital baiana, aos poucos vai isolando-se em sua residência, sendo que algumas vezes viajou ao Rio de Janeiro.

            Com infatigável paciência e arte, haverá lugar para sua obra. Há sem dúvida, algo de novo em sua ficção, pois Xavier Marques se esmera na busca de temas raros. Sua obra de primorosa qualidade na qual transvive em nossa língua toda sua força poética, esse mestre admirável que foi profundo conhecedor da língua portuguesa e manejador exímio. A primeira qualidade de qualquer trabalho literário é, sem nenhuma dúvida, a sua linguagem, por isso se faz necessário. Não basta, mas é preliminar. E Xavier Marques possuía profundamente esse conhecimento, tinha larga e intensa leitura dos clássicos, graças ao encanto e sabor da sua prosa admirável, composta com exatidão que não se excluem esses elementos: elegância, harmonia e novidade de expressão.

            A obra ficcional de Xavier Marques será detectada pelas influências realistas e naturalistas, tanto na linguagem como na abordagem temática. E será ponto referencia presente até seu último livro. Sua produção é sobretudo uma contribuição ao enriquecimento do patrimônio cultural brasileiro, graças à sua elegância de estilo, quer como escritor ou jornalista militante com suas aspirações e ideias de alcance humanitário e patriótico. Xavier refletiu em todas as suas atividades, o realismo refinado que não é fácil encontrar em outra obra de ficção brasileira. Vejamos algumas delas: O Feiticeiro; Jana e Joel; A Boa Madrasta; Maria Rosa; O Arpoador e a Noiva do Golfinho.

O Feiticeiro (GRD, São Paulo, 1975). É a forma definitiva que o seu autor Xavier Marques, resolveu dar ao romance de costumes que escreveu e foi editado em 1897 com o título de Boto & Cia. Completamente refundido, substituídos muitos dos seus capítulos, desenvolvidos outros, alterado mesmo o caráter de alguns personagens, pode-se dizer que O Feiticeiro é um trabalho novo e não conserva do antigo senão os cenários, as figuras, estas retocadas, e o pensamento a que obedecera o romancista.

Estudando o caráter, os costumes, as festas, as superstições dos baianos, Xavier Marques retratou em suas linhas e feições gerais o tipo nacional, o brasileiro autêntico,

mestiçado, mais ou menos transitório, das regiões mais brasileiras do país. Nesse romance, os leitores vão encontrar, as danças de candomblé, as rainhas dos batuques, as sessões de feitiçaria na casa onde se ata e desata o destino das namoradas supersticiosas, tudo isso enquadrado na vida alegre social e política da velha Bahia.

O ficcionista baiano desperta sempre, sendo um desses raros escritores que podem ser relidos, em virtude de iluminar reveladoramente, uma luz intensa e nova, motivando o professor David Salles, a publicar O Ficcionista Xavier Marques: um estudo da transição ornamental, Ed. Civilização Brasileira/MEC, 1977. Xavier Marques faleceu em 30 de outubro de 1942. [1]


[1] Tribuna da Bahia. Salvador, 21 de fevereiro de 1988.
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Jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Associação Sergipana de Imprensa – ASI, do Grupo Plena/CNPq/UFS e do CPCIR/CNPq/UFS. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe – gilfrancisco.santos@gmail.com