Thales Ferraz, diretor da fábrica de tecidos Sergipe Industrial

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Por Gilfrancisco

Tendo sido um dos diretores da primeira fábrica de tecidos no Estado,  “Sergipe Industrial”  entre 1906/1927, criada em 15 de fevereiro de 1882 na cidade de Maroim um dos grandes centros do comércio açucareiro da província, sob a denominação de Cruz & Cia., por iniciativa do comerciante baiano João Rodrigues da Cruz (1844-1893), explorou o comércio de exportação e importação e com a ajuda do irmão Thomaz Rodrigues da Cruz (1852-1919) rapidamente prosperou.

         Em 1881 seu pai, o estanciano José Augusto Cesar Ferraz, guarda-livros da firma, por decisão da diretoria, passa a ser o encarregado de todos os negócios da Associação Sergipense, responsável pela Companhia de Navegação Fluvial em Sergipe. Devido a capacidade e inteligência para os negócios comerciais, ingressa na sociedade Cruz, Ferraz & Cia.

         Em Aracaju a Sergipe Industrial foi inaugurada em 20 de abril de 1884, no bairro Industrial, e funcionava com 60 teares e empregava 160 operários que trabalhava 12 horas por dia, produzindo brim, cetim, bulgariana, algodãozinho e estopa. Mas seu principal mercado era a produção de sacos para a indústria do açúcar. Com a morte do pai em 1906, Thales Ferraz passa a integrar a sociedade e treze anos depois com a morte de Thomaz, chega a gerencia da Sergipe Industrial, permanecendo até sua morte, em 1927.

                                                 *** 

Filho do industriário estanciano José Augusto Cezar Ferraz (1848-1906) e da aracajuana Anna Ferraz (1858-1918), nasceu em Aracaju a 08 de outubro de 1878 e faleceu na mesma cidade em 27 de setembro de 1927. Tinha três irmãos; Álvaro Ferraz (1888-1918), Belisana Ferraz da Fonseca e Lysippo Ferraz (?–1936) proprietário de uma casa comercial de artigos variados. Thales Ferraz iniciou seus estudos em Aracaju e fez o seu curso de preparatórios em Salvador no Colégio São Salvador (BA), como aluno interno, na época sob a direção de educadores baianos, bacharel Adolpho Frederico Tourinho Filho e do engenheiro José Caetano Tourinho. 

 Colégio São Salvador – antigo estabelecimento de ensino, estava de acordo com o programa do Colégio Pedro II, à época Ginásio Nacional, funcionava no Solar ou Palacete Berquó, iniciada ou concluída sua construção em 1691, conforme indica a gravação acima da portada, está localizado na Rua Visconde de Itaparica nº 8, também conhecida por Rua ou Ladeira do Berquó, – Barroquinha, entrada principal, e outra  pelos fundos, que dá acesso à rua José Joaquim Seabra (1855-1942). Na década de 1950, conheci as dependências do “Solar”, onde aos finais de semana jogava futebol em sua extinta quadra esportiva, além de assisti os ensaios não somente da banda marcial do colégio mas do bloco Carnavalesco Mercador de Bagdá, criado em 1953 e em 1959 os Cavalheiros de Bagdá, ambos criados por Nélson Maleiros, confeccionador de malas e baús, além de confeccionar instrumentos de percussão e toda estrutura dos carros alegóricos. Nesse grande espaço interno do São Salvador, eram montados e guardados os carros alegóricos do bloco, para os desfiles carnavalescos.

Fundado em 3 de fevereiro de 1885, pelo bacharel Adolpho Frederico Tourinho (1855-1902) membro de uma família tradicional baiana, que abandonou a carreira de magistrado para fundar a mencionada instituição de ensino. Inicialmente o Colégio funcionou em um prédio localizado à Rua do Pão de Ló, mas pouco tempo depois em 1886, estabeleceu-se definitivamente na Rua Visconde de Itaparica, nº 8, antiga rua da Lama, no Palacete Berquó, onde atualmente é a sede do IPHAN – Bahia.

            A instituição funcionava em regime interno e externo, com os cursos: primário, secundário, normal e complementar. Apesar de não ser um colégio religioso, possuía identidade católica, cuja padroeira era Nossa Senhora da Conceição. Além das disciplinas normais, havia aulas de religião, missas solenes, catequese para a primeira comunhão e outras atividades religiosas.

            O Ginásio São Salvador além de ser uma instituição familiar, os Tourinhos moravam no próprio estabelecimento, foi possível mantê-lo até 1963, quando a família arrendou para uma docente da casa a professora Olga Campos Menezes (1918-2012), que dirigiu a instituição até seu fechamento, no início da década de 1980. Pouco tempo depois o prédio onde funcionou o Colégio São Salvador por cause 100 anos, foi vendido pela família Tourinho ao IPHAN, que restaurou e nele instalou sua sede.

Palacete Berquó – morava nesta residência em 1760 o Ministro Ouvidor do Crime Francisco Antônio Berquó da Silveira, onde foi assassinado covardemente por uma horda de soldados de um batalhão denominado Periquitos, na madrugada do dia 25 de outubro de 1824, o general Francisco Gomes Caldeira Brant (1786-1824), militar brasileiro, herói da Independência da Bahia.

Europa – Tendo concluído esse ciclo de estudos, em seguida, o jovem adolescente Thales Ferraz segue para a Inglaterra onde estuda – Thechnical Eschoul de Mancheter e em agosto de 1896, presta  exames de 1º ano do curso Superior de Artes e Manufaturas na Universidade de Londres, diplomando-se em engenharia têxtil, após um curso de cinco anos, dos quais dois passou nas grandes oficinas de Boltha, estágio obrigatório, um complemento prático e específico dos estudos d’aquela universidade, na seção de Engenharia Têxtil. [1]

Em terras sergipanas, no mês de agosto de 1902 através da Secretaria do Governo do Estado de Sergipe se faz público que, segundo comunicação do Exm. Sr. Ministro das Relações Exteriores, em oficio de 12 de julho findo, sob nº1 foi concedido executar à nomeação do Sr. Thales Ferraz para Vice-Cônsul da Gran Bretanha, nesta capital. Vejamos a Nota “Vice-cônsul Inglês” publicado no Estado de Sergipe em 3 de setembro:

 (Ilegível) e correto jovem sergipano Dr. Thales Ferraz, para exercer as funções do cargo de vice-cônsul; ele que as qualidades cívicas e morais de que é dotado tem a dita de reunir os predicados intelectuais, que já vão acentuadamente distinguindo no seio da sociedade sergipana.

Agradecidos pela delicadeza da comunicação asseguramos para o Dr. Thales Ferraz o melhor e o mais cabal desempenho nas funções do seu novo cargo, para cujo auxílio, em se fazendo mister, O Estado de Sergipe franqueia os seus humildes serviços, ao mesmo tempo que envia ao recém-nomeado suas sinceras e cordiais felicitações.

Ao retornar, ocupou o lugar de engenheiro na fábrica Sergipe Industrial, fazendo parte da diretoria do mesmo estabelecimento a partir de 1906, pelo falecimento do seu pai José Augusto Cezar Ferraz. Na qualidade de diretor, ele dirigiu a reforma completa dos maquinismos, demonstrando conhecimentos técnicos notáveis, cujas qualidades de iniciativa e boa direção empregada em harmonia com as dos seus companheiros de diretoria: Thomaz Rodrigues da Cruz (1852-1919) e Manuel Rollemberg Rodrigues da Cruz (1886-1937).

Em 1918 Thales Ferraz sofre um grande golpe, quando em 1º de abril morre prematuramente seu irmão Álvaro Ferraz, comerciante de prestigio na capital federal. Segundo o Diário da Manhã em Nota de falecimento, diz ser o falecido um “distinto cavalheiro de aprimorada educação, possuidor de um espírito fino, cujas qualidades eram por demais distintas e conhecidas em nosso meio social”.

Álvaro Ferraz encontrava-se adoentado há algum tempo na capital federal, tendo regressado a Sergipe para procurar no interior do Estado, recursos para sua saúde, profundamente abalada. Decorrido sete meses, outro choque que o deixara bastante abalado, o falecimento de sua mãe, Anna Ferraz em 27 de novembro aos sessenta anos.

Num domingo dias antes do falecimento de D. Anna Ferraz, falecera nesta cidade sua avó, D. Clara Rodrigues da Lomba. Informa o Correio de Aracaju que contava já a respeitável idade de 90 anos, mas a sua morte foi muito sentida, porque D. Clara era uma alma predestinada que levara a sua vida espalhando o bem. Sentidos pelo seu desaparecimento, damos pêsames à distinta família.

O jornalista Luiz Antônio Barreto (1944-1912), um dos grandes preservadores da memória histórica e cultura de Sergipe, em artigo  publicado em 10 de janeiro de 2005 no Correio de Sergipe, dedicado às comemorações dos 150 anos da história de Aracaju, entre outros assuntos expostos, trata das novidades da década de 20 na capital sergipano:

Em 1927 falece Thales Ferraz, engenheiro têxtil formado em Manchester, na Inglaterra, por muitos anos Diretor da fábrica Sergipe Industrial, criador e mantenedor do Parque Sergipe Industrial, o maior e mais diversificado complexo de lazer da capital sergipana. Em 1913, depois de viajar pelos Estados Unidos da América do Norte em busca de ideias para as relações com os operários da fábrica, Thales Ferraz desenhou e instalou o Parque, com mesas e cadeiras acolchoadas, para uso dos trabalhadores e suas famílias, oferecendo cinema, espetáculos de teatro, de música, ampliando o convívio social nos bailes, nos piqueniques, excursões, enquanto garantia serviços médicos, odontológicos, farmacêuticos, educacionais aos filhos dos operários. Creche, escolas, farmácia, existiam ao lado dos clubes desportivos, formados com o pessoal da própria fábrica.

Thales Ferraz foi um benemérito da cidade de Aracaju, contribuindo para a construção do Hospital de Cirurgia. Com a construção de casas operárias e abertura de novas vias no bairro Chica Chaves, contribuiu para as constantes ações populares do bairro. Segundo Luiz Antônio Barreto em artigo publicado na Gazeta de Sergipe em 21 a 24 de fevereiro de 1982, esclarece que a fábrica, “pioneira na organização de festas e que proporcionou aos seus operários o lazer diversificado que a cidade ainda não oferece a sua população”. Para os blocos carnavalescos a fábrica dava os tecidos e assumia os custos com as fantasias, além de Thales Ferraz emprestar seu automóvel para conduzir as alegorias pelas ruas do bairro.

 Tais opções de lazer estendida à população local, foi a instalação do Cinema Parque, exibido ao ar livre numa parte anexa a fábrica. O movimento crescia lentamente no bairro e foi melhorado depois que a ponte que liga a capital ao bairro Industrial foi recuperada e finalmente com estrutura de concreto em dezembro de 1974 na gestão do prefeito da capital, Cleovansótenes Aguiar, indicado pelo Governador do Estado.

 “As pequenas feiras-livres que se formavam em frente da Fábrica, nos sábados à tarde, dia do pagamento do pessoal, sobreviveram por alguns anos, mas também desapareceram”, relata Fernando de Figueiredo Porto em Alguns Nomes Antigos do Aracaju.  Amando Fontes em seu romance Os Corumbas, marca, definem, fixa, envolve na sua trama um flagrante da luta proletária, o episódio trágico de suas greves. Não é um livro revolucionário. Não prega nem excita as massas e sim um relato de lamuria, de sentimentalista revolta individual de cada operário das fábricas; Confiança e Sergipe Industrial.  A famosa “Feirinha do Tecido” realizada próxima às fábricas está descrita pelo autor sergipano/santista:

Nesses dias as Fábricas largavam mais cedo, depois de efetuado o pagamento. Em frente aos seus granes portões formava-se uma pequena feira, que servia de distração aos proletários.

Para lá acorriam sírios, com suas caixas de bugigangas, pretas velhas, com seus tabuleiros de doces e de frutas; roceiros, com enormes balaios de aipim e de beijus…

Além dos vendedores, havia ainda muita gente. Homens, que vinham esperar as namoradas; mães, que iam ao encontro das filhas, portadoras do dinheiro tão precioso; bandos de soldados do Exército e da Polícia, a chalacear com as raparigas; malandros e curiosos, atraídos pelo ajuntamento de mulheres.

         Na edição de 27 de outubro de 1939 de O Estado de Sergipe, um pequeno texto confirma que as feirinhas do bairro industrial verdadeiramente animadas, continuam em benefício do fundo social do Vitória Futebol Clube, presentemente sob a presidência do jovem José Lacerda:

         É uma distração noturna que tem despertado o ânimo dos amantes das festas de caráter das natalinas realizadas e nossa capital no fim do ano.

         Devido ao objetivo, grande tem sido a ocorrência, porquanto tratar-se de adquirir verbas a serem empregadas na educação física do núcleo de cultivadores do jogo bretão daquele bairro.

Com a substituição do bonde de tração animal de 1908, pelo elétrico introduzido na cidade de Aracaju em novembro de 1926, muito contribuiu para o desenvolvimento do bairro. O bonde elétrico, inaugurado pela Empresa Carris Urbanos, num pequeno trecho que ligava a Rua de Laranjeiras à de Japaratuba, e prometia até o final do mês, chegar ao Cemitério Público. E mais, haviam começado o aterro para as linhas da Fundação e do bairro Chica Chaves. Nosso maior memorialista, Murilo Mellins, que na juventude de estudante do Atheneu, foi assíduo frequentador do bairro Industrial, onde semanalmente visitava sua bela cabocla, uma jovem operária da fábrica Sergipe Industrial, descreve muito bem o trajeto bonde em seu livro Aracaju Romântica que vi e vivi (anos 40 e 50):

Bonde número I – Bairro Industrial. Ponto de partida: Praia do Tecido ou (Chica Chaves), percorria a Avenida Confiança, Avenida João Rodrigues, passando pelo centro, entrando na praça Fausto Cardoso, indo pela avenida Ivo do Prado, avenida Augusto Maynard, descendo a rua Itabaiana, em direção à rua João Pessoa e daí ao ponto de origem.

Em julho de 1912, a Intendência Municipal começou a numerar os prédios da cidade de Aracaju, pelo Bairro Industrial. Esta iniciativa mereceu do jornalista Enoch Matusalém Santiago, que assinava a coluna “Fitas” (LIX) sob o pseudônimo Max; publicado no Diário da Manhã de 4 de julho. Vejamos o poema:

Isto não é coisa em nada original.

A entrada principal

De qualquer coisa é sempre pela frente.

Se vê pois claramente,

Que a entrada principal de Aracaju,

É pelo “Carvão”

E não, lá pelo morro do Urubu.

É “vero” que não posso isto afirmar,

Pois que se pode bem filosofar:

A entrada da cidade,

É em qualquer um, seve, dos quatro lados,

Por onde chegam gêneros importados.

Mas… considerando,

Que a entrada principal é pela frente,

Eu posso ir por aqui, vos afirmando,

Abalizadamente,

Que a cidade começa,

Por onde entram vapores

De comunicações exteriores.

Em conclusão:

Devia-se numerar o Aracaju,

Pelo “Carvão”

E não lá pelo alto do Urubu.

Considerando somente,

A entrada principal ser pela frente.

                                      Max

O Diário da Manhã, edição nº395 de 2 de julho de 1912, registra ter sido realizado em 29 último, dia consagrado a São Pedro, no vasto salão da fábrica sergipana um grande baile:

Às horas da noite começaram as danças, continuando numa alegria crescente, pois, para isto, tudo ali correria, desde o escolhido terno de música da banda policial, a harmonia sonora do piano, a feérica da luz e a ornamentação do salão, até a magnifica ordem que reinava.

Àquela festa, promovida pelos honrados operários da fábrica, associaram-se para aumentar o seu brilhantismo os principais e distintos diretores da Sergipe Industrial que, de concerto com os seus promotores, cumularam todos os presentes de delicadezas.

Terminou-se esplêndido baile às 5 horas da manhã, nada absolutamente faltando para a real satisfação dos que nele tomaram parte.

O Correio de Aracaju registra-se em edição de 3 de julho de 1912, um grande baile organizado pelos operários da fábrica Sergipe Industrial, realizado em um dos seus salões:

A banda de música do corpo policial tocou bonitas contradanças, que outras vezes eram substituídas pelo piano.

A hora adiantada da manhã, por entre as saudades dos convivas, terminou-se o festival, deixando a mais agradável impressão.

Nesse mesmo jornal edição 15 de janeiro de 1913, numa pequena nota “”Festa” diz o seguinte:

Sábado último o salão de festas da Sergipe Industrial esteve repleto de senhoritas e cavalheiros distintos, operários e chefes daquela fábrica que fizeram animado baile.

A festa foi importante e terminou pelo romper d’alva.

Os chefes do operariado como sempre foram delicados, e pródigos em gentileza.

A realização das festas na fábrica de tecidos, tornaram-se rotineiras aos sábados. Vejamos outro registro do Correio de Aracaju de 10 de dezembro desse ano:

O salão da Sergipe Industrial, onde se fazem sempre agradabilíssimas festas, sábado foi aberto aos dirigentes operários daquele centro de indústria que é a fábrica de tecidos, e a seus convidados, para um baile oferecido pelo seu digno chefe Dr. Thomaz Cruz.

Ali quando se fez sarau tem-se a contínua preocupação de ser agradável em tudo, de combinar, de imaginar, de inventar mesmo o que possa deleitar o conviva e deixar uma impressão duradora desses momentos de raro prazer.

Eis porque é sempre um sucesso uma dessas festas.

O operário, trabalhador e aplicado, tem gosto em colaborar com quanto possa para que nada falte ao realce do baile e para que ele seja o mais animado possível.

O de sábado último foi admirável.

À hora em que chegamos o amplo salão resplandecia de luz e senhoritas; cavalheiros acompanhando senhoras davam entrada na sala e a ruidosa animação que se observa toda a vez que alguma cousa de bom se nos anuncia fazia prever o quanto de prazer se ai fruir naquela reunião.

Presente todos os convidados e operários então a senhorita Josepha Mattos, em nome dos seus companheiros de labores, agradeceu o oferecimento daquela festa e saudou o Dr. Thomaz, enaltecendo as boas qualidades e a nobreza de sentimentos.

Então o Dr. Thomaz, trêmulo de comoção pelo expressivo do testemunho de amizade que acabara de ser alvo, incitou-os a ter como religião o dever e a trabalhar pelo bem comum sempre amigos, sempre companheiros.

Seguiu-se a festa. Valsas deliciosas schottischs magníficas espalhavam pelo recinto sonoríssimas notas a cujo impulso deslizavam os pares no torvelinho adorável da dança.

Mais de uma vez implorando vibrava imponente n’alma elevando a um Eden as fantasias da imaginação, e acordando queridas recordações.

E no meio das mais agradáveis e gratas palestras, e de danças garridas passaram rápidas as horas até que às 3 da manhã deu-se por finda a festa.

As gentilezas, as considerações a nós prestadas, somos solícitos em agradecer dando parabéns aos operários da Sergipe Industrial e a seus chefes.

Na primeira fase da criação do Centro Operário entre 1911/1915, a escola operária funcionou no salão da Fábrica de tecidos da Sergipe Industrial, contando com a ajuda do empresário e engenheiro têxtil proprietário da fábrica, Thales Ferraz (1878-1927), tentou repassar os seus conhecimentos técnicos e científicos aos mestres e contramestres da fábrica e introduziu novas regras nas relações capital/trabalho. A partir de 1916, a escola passa a funcionar nas instalações da casa do professor Sebastião Públio de Albuquerque, contando para isso, com a ajuda do governador Manuel Presciliano de Oliveira Valadão (1914-1918), que além de ampliar as instalações proporcionando toda a infraestrutura de uma escola. A construção da sede própria do Centro Operário Sergipano ocorre em 1920, ano em que a Escola Horácio Hora, passa a funcionar na sede da agremiação operária.

Com o crescimento desordenado do Bairro Industrial, muitos desocupados, desordeiros se amontoavam nas portas das fábricas de tecidos Sergipe Industrial e Confiança, perturbando a ordem públicas. Levados pelas constantes reclamações dos operários os diretores solicitaram a Força Pública providências. Vejamos o teor da denúncia que foi primeiramente publicada no Estado de Sergipe em 14 de junho e republicada no Diário da Manhã, nº 2.347, 15 de junho de 1919).

Em busca da verdade

            Do Estado de Sergipe, de ontem, copiamos a seguinte notícia:

         Em virtude de pedido de representantes do operariado da Fábrica Sergipe Industrial e da gerência da Fábrica Confiança, situadas no Bairro Industrial, desta cidade, o Sr. Dr. chefe de Polícia, mandou postar ali, entre os dias ditos estabelecimentos, de modo conveniente à fiscalização dos interesses materiais destes, uma força policial, devidamente municiada, composta de 10 praças, sob o comando de um inferior, para o policiamento da zona respectiva, impedindo a ação maléfica de elementos subversivos, que ameaçam perturbar a ordem pública, prejudicando os interesses das mesmas companhias e opondo-se à liberdade de trabalho dos respectivos operários, tendo, para isto, o comandante do mesmo contingente recebido as ordens mais terminantes e positivas do Sr. Dr. Chefe de polícia.

         A estada da força no referido bairro tem caráter de permanecer, até que se normalize de todo a situação criada pela atitude de desordeiros do lugar, contra as quais reclamaram as interessadas na manutenção da ordem pública.

José Augusto

Aterro e drenagem da capital sergipana foram realizados na gestão de Pereira Lobo, entre 1919 e 1920, sendo um dos principais serviços de aterro executados na grande área situada ao norte da cidade, onde se achava localizada a Estação da Estrada de Ferro. Na época existia uma imensa lagoa que se formava nos terrenos de apicum, que separavam a Rua Japaratuba do bairro Industrial.

Encontrando-se no Rio de Janeiro em 29 de junho de 1920, Thales Ferraz segue no “Vasari” juntamente com Augusto César Leite e Raul Faro Rolemberg tendo como destino Nova York – Estados Unidos da América, onde permaneceria por aproximadamente quatro meses. Era comum quando Thales Ferraz retornava a Aracaju de suas viagens serem recepcionado pelos operários. Em setembro de 1920, uma comissão de operários da fábrica de tecidos, estava preparando uma recepção calorosa para o bem quisto diretor Thales Ferraz. Foram a redação do jornal Correio de Aracaju para se fazer representar na manifestação organizada pela comissão do centro fabril. Aceito o convite, o Redator chefe agradece a brilhante iniciativa e redige um pequeno comentário sobre sua relação de amizade com o diretor da fábrica, publicado na edição do dia 24 de setembro:

         É que acima de tudo, essa justiça para com o homem que se interessa diretamente pela causa do operário, que vive das suas alegrias e sente as suas tristezas; para com um espírito fino que se impõe à estima dos grandes pelo seu trato fidalgo, também se não despreza de baixar até a intimidade dos pobres, com quem parece identificar-se pela natureza do seu trato despretensioso e franco.

         Estamos, pois, decididamente ao lado desses operários em cujo coração se desperta tão nobres sentimentos de justiça. Hipotecamos-lhe o nosso apoio, e do seu lado iremos também aumentar o número dos que vão levar o preito das suas alegrias ao estimado diretor da Sergipe Industrial, o Dr. Thales Ferraz.

         Retornando dos Estados Unidos no início do mês de outubro, o diretor da fábrica de tecidos Sergipe Industrial é recebido no Porto pelos operários, admiradores e imprensa local. Vejamos a publicação de A Cruzada de 3 de outubro, 1920:

         De regresso de um passeio aos Estados Unidos, na 4ª feira finda, a bordo do Itaipava chegou a esta cidade o nosso distinguido amigo Dr. Thales Ferraz, digníssimo diretor da importante fábrica – Sergipe Industrial.

         A recepção festiva sobremaneira carinhosa de que foi alvo, significa o to conceito devotada aos peregrinos dotes que sabe realçar em nosso meio como cavalheiro prestantissimo e chefe querido do notável estabelecimento industrial nesta capital.

         A primeira notícia precursora da sua vinda, num frêmito entusiástico de vibrantes manifestações, os seus numerosos amigos e todo o pessoal da Sergipe Industrial se acordaram na brilhante demonstração da grande admiração e estima que certo se traduziu na sua recepção de inusitado brilhantismo.

         Em seu desembarque além do crescido número de amigos e de uma comissão de operários, se fizeram representar o nosso Prelado pelo mons. Adalberto Sobral, o exmo. Sr. Presidente do Estado pelos Drs. Álvaro Silva e Mario Bastos pelo Dr. chefe de Polícia Dr. Júlio Leite.

         Feito o desfile em bondes especiais até a estação da Chemins, o avultado prestito a pé, entre alas formadas de operários em jubilosas ovações ao seu ilustre gerente, entre abundantes chuveiros de flores e confetes se dirigiam para a residência do Dr. Thales Ferraz no bairro Industrial, onde recepcionou as seguintes representações: – Chrylito Chaves, pelo operariado em geral, senhorinha Laura Lemos, pelo escritório da fábrica; senhorinha Judith Morais, pela Fiação; senhorinha Alyra Silva, pela Tecelagem e a menina Maria Berilla, pela escola Thomaz Cruz.

         Apresentamos ao nosso eminente amigo as afetuosas visitas de boas-vindas.

Thomaz Rodrigues da Cruz

         Ficou determinada pela Comissão de operários encarregada dos festejos para a recepção de Thales Ferraz, que a missa em ação de graça pelo seu retorno do exterior, fosse celebrada no dia 5 de outubro, por estar próximo a data do seu aniversário. Vejamos o registro d’A Cruzada de 10 de outubro de 1920:

Celebrou-a o exmº e revmº Sr. mons. Adalberto Sobral, zeloso vigário geral do Bispado, que, antes de começa-la, dirigiu algumas palavras aos assistentes, salientando, a justiça das manifestações que lhe eram tributadas, e, congratulando-se, por fim, com os operários da Sergipe Industrial, em cujo coração vive o Dr. Thales Ferraz, rodeado da rica aureola da benemerência.

À capelinha da Sergipe Industrial afluiu enorme quantidade de amigos, cavalheiros e senhoras da nossa melhor sociedade.

Todos os operários rejubilavam-se pelo fato que então se comemorava.

Entre os sacerdotes vimos os padres Dr. Antônio Affonso da Silva, Solano Dantas de Menezes e cônego Floduardo Fontes.

A orquestra esteve a cargo das cantoras da igreja de S. Salvador, que muitos correram para o brilhantismo da festa.

Durante o ato religioso estavam postadas à frente da capela da fábrica duas bandas de músicas – a do Batalhão Policial e a Joaquim Honório.

Após a missa, foi o Dr. Thales muito cumprimentado, tendo havido várias diversões como solenização daquele dia.

Reiteramos ao nosso distinguido amigo Dr. Thales Ferraz os votos de muitas felicidades, e aos operários da Sergipe Industrial nossos parabéns pelo desempenho do programa das festas com que homenagearam seu ilustre e esforçado chefe.

As comemorações do aniversário de Thales Ferraz, ao completar 43 anos, ilustre e benemérito chefe da empresa Sergipe Industrial, conforme registro do jornal A Cruzada de 9 de outubro de 1921:

         Pelas 7 ½ começou a missa festiva de ação de graças. O revmº padre José Augusto proferiu antes da missa algumas palavras de congratulações.

         O Santo sacrifício foi entremeado de suavíssimos hinos, primorosamente cantados por várias senhorinhas com acompanhamento de harmônio e violino. A concorrência foi notável.

         À noite houve uma solene recepção à qual comparece grande número de operários, entre os quais é com justiça acatada e estimado o digno aniversariante.

         Sociando com as ditas manifestações, cumprimentamos ao Dr. Thales Ferraz, renovando-lhe nossos votos de muitas felicidades.

O industrial Thales Ferraz sempre esteve envolvido em ações festivas organizadas pelos operários da fábrica, até convite para ser padrinho de casamento de operários, ele aceitou. O jornalista João Esteves estava a fazer a barba e observou passando na calçada próxima a Barbearia do Chico Alemão um casal e resolveu escrever essa crônica sobre o ocorrido. Vejamos um trecho:

 Um belo casal de gente cor-de-rosa, em plena mocidade, raça apurada no tegumento de alvor ariano e na linha forte de descendente de Atila; gente do Reno, de doces olhos azuis, gente quase oleográfica tal a sua perfeição física.

Rapagão desempenado, de natural elegância na linha vertical da forte juventude, e porejando alegria por todas as abertas da alma, no gesto sacudido, na visão radiosa, no riso franco e satisfeito.

Rapariga nada a desejar preenchendo todas as condições do concurso de beleza aberto pela “Semana” e pela “Noite”, do Rio.

Linha admirável de pouco flexível, donairosa nos suaves movimentos, bela, de lindeza ideal, quase um voo no ritmo suave do seu passo de garça, e na boca vermelha, como um cravo florido na neve, a branda carícia de um sorriso a anunciar o paraíso ainda inocente, o do amor sem pecado, sem os suores da canseira masculina e as dores seculares da maternidade, o santo imposto do amor.

Indagamos. Eram noivos.

Ele, de fato, alemão legítimo, gente loira do Reno, lembrando o Siegfried da tetralogia Wagneriana em busca de célebre anel dos Niebelugens, e ela a formosa Chremilde, mas das nossas terras, bonita brasileira de Sergipe, tocada pela marinha azul do Cotinguiba, e vindo da classe humilde, do trabalho fabril, na tarefa de aranha gentil, ganhando, virtuosa, o pão de todo dia.

Agora vejamos a Nota “Um Famoso enlace” publicada no Diário da Manhã de 30 de abril de 1922, a mesma data da publicação da crônica de João Esteves:

 Consorciaram-se, ontem pelas 5 horas da tarde, os dois jovens a que se refere a nossa crônica A Semana.

A providência dos humildes, causando o engenheiro eletricista Henrique Freidank, funcionário da Confiança, coma senhorita Cecilia Vieira, operária que foi da Sergipe Industrial, dá uma alta lição moral do quanto valem a beleza e a virtude, que não têm pátria porque são de todo mundo, que não escolhem palácios porque são de todos os lares.

Paraninfaram o ato os ilustres industriais coronéis Sabino Ribeiro e Dr. Thales Ferraz.

Parabéns ao formoso casal, e que a fortuna os acompanhe no curso da existência.

         Dois anos após sua morte, realizou-se na sede do Sport Clube Aracaju, importante sessão em homenagem ao saudoso industrial, Thales Ferraz, falecido em 27 de setembro de 1927. A sessão foi aberta por Aristides Rego presidente efetivo daquela associação desportiva, que depois de proferir algumas palavras, convidou o deputado Xavier de Oliveira para presidi-la. Este, explicou o motivo da reunião, em seguida concedeu a palavra ao orador oficial, Edison Ribeiro, que se referiu demoradamente à vida do saudoso homenageado “que fora sempre, entre nós, um elemento de destacado valor”.

João Rodrigues da Cruz

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Jornalista e escritor, membro dos Grupo Plena/CNPq/UFS e do GPCIR/CNPq/UFS. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe gilfrancisco.santos@gmail.com


[1] A Notícia. Aracaju,17 de julho de 1896.