Cê, Eu

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Por André Doria

As notícias das separações de casais famosos no final de 2025 deixaram surpresos fãs e séquitos de seguidores. Um numerólogo explicou que a soma dos números que compõem 2025 resulta em nove, que indicaria o final de um ciclo.  Lembrei de um disco lançado em 2006, até torci para que fosse em 2007, pois aí somaria nove. Por um ano a mais me escapou o apoio dos numerólogos. Uma das canções do disco diz: “Tatuou um ganesh na coxa, chegou com a boca roxa de botox, exigindo rocks (…) eu não dei letra”. Embora não tenha dado bola, segundo seus versos, à tatuagem que uma namorada ocasional fez à época em que vivia uma crise conjugal, a falta de “letra” de Caetano Veloso mais tarde seria quebrada em uma obra tradutora do que pode ser o luto provocado por uma separação amorosa: o disco Cê, que mais tarde o próprio Caetano revelou significar a abreviação de você. Embora o nome do disco transmita a impressão de que ele se refere à sua ex – companheira, as canções passeiam  pela montanha russa do que pode se constituir o trabalho de luto, que costuma ser um processo autorreferenciado, muito mais centrado em nós mesmos do que no outro. O Cê em questão é sempre um pouco, ou muito, Eu.  E deu muita letra, um álbum inteiro.  O looping inicia pela já conhecida mistura de amor e ódio no luto amoroso, e surge explícito no título da canção “Odeio”, embora seus versos revelem também os flashes de euforia que podem aparecer no processo: “veio a maior cornucópia de mulheres, todas mucosas pra mim, o mar se abriu pelo meio dos prazeres, dunas de ouro e marfim (…)”. As canções vão se sucedendo, intensas e viscerais, até chegar em uma cujos versos dizem: “eu não me arrependo de você (…) fiz você crescer (…) vi Cê me fazer crescer também, pra além de mim”. Ou seja, coroando, em uma única obra, uma espécie de amostra do que seriam os três momentos de elaboração do luto: o momento de ver (inicial), o momento de compreender e o momento de concluir.

Esses três momentos não são uma regrinha, ou um manual, não são etapas ou fases como em um jogo de tabuleiro, mas podem nos dar pistas quando estamos diante do luto. O álbum ‘Cê’ condensa em cerca de 30 minutos o que, para algumas pessoas, pode durar uma vida inteira. As mães da praça de maio são um conhecido, e triste, exemplo disso. Seus filhos desapareceram durante a ditadura militar argentina e seus corpos nunca foram encontrados. Desde 1977, reúnem-se todas as quintas feiras, às 15:30, na Praça de Maio, para cobrarem explicações sobre os desparecimentos. Estão, literalmente, fixadas no que seria o primeiro tempo do luto, o momento de ver, já que a elas foi negado o direito de verem, velarem e sepultarem os corpos de seus filhos, conduzindo-as a um luto que não é possível de ser elaborado.

Voltando a ‘Cê’, o álbum mostra com sua crueza delicada que é uma ilusão achar que o resultado final da elaboração do luto é deletar o objeto de amor, como tentaram sem sucesso os personagens de outra obra interessante sobre o tema, “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças.  O que ‘Cê’ nos ensina é que não se trata de apagar o objeto perdido, mas de buscar uma nova forma, uma nova reorganização do lugar que ele ocupa em nós. Como sempre, os artistas chegam primeiro na resolução dessa difícil equação. Sigamos suas pistas.
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Psicólogo e coordenador do Programa de Tratamento do Transtorno Bipolar da Clínica Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria

Foto: Joilson Pereira-Divulgação