Por Victor Pinto
A disputa que hoje se desenha dentro do PSD baiano não nasce da eleição de 2026. Ela nasce antes, no debate sobre quem conduz ou quer conduzir o partido, quem define o rumo e quem fala em nome da sigla. O que está em jogo não é apenas a composição da chapa majoritária, mas o protagonismo político de uma legenda que se tornou peça central do xadrez estadual. Otto Alencar e Angelo Coronel, cada um a seu modo, disputam esse espaço.
Otto Alencar é o eixo em torno do qual o PSD foi construído a partir da Bahia. Ele foi o principal braço da fundação da sigla e nunca permitiu que o PSD fosse mero satélite de outras legendas. Criou musculatura política local, garantiu autonomia e, ao mesmo tempo, projetou-se nacionalmente. Otto não depende do PSD para existir politicamente dada a sua trajetória, mas virou algo intrínseco; o PSD, na Bahia, depende dele para manter relevância.
Angelo Coronel é fruto direto dessa construção. Cresceu politicamente sob a tutela de Otto, ocupou espaços estratégicos, foi presidente da Assembleia Legislativa e chegou ao Senado com o aval do partido e do seu principal líder. É o típico caso de criador e criatura. O problema começa quando a criatura deixa de aceitar o papel de coadjuvante e passa a disputar o comando da narrativa.
Hoje, Coronel busca afirmar autonomia. Quer deixar claro que tem voto, base e projeto próprio. Otto, por sua vez, reage de forma firme. Tem feito questão de lembrar, conforme alguns relatos, que a história do PSD passa por ele. A tensão que antes não era aberta agora está visível. E cresce à medida que se aproxima março de 2026, tido como prazo fatal das definições que vão impactar outubro.
O embate ganha contornos mais complexos quando entram em cena os herdeiros políticos. Do lado de Coronel, Diego Coronel se consolidou como nome extremamente articulado, com mandato, presença e ambição clara, ao lado do irmão, Angelo, garantidor do assento do clã na Alba. É o sucessor natural dentro do grupo familiar, tanto que assumiu a linha de frente dos diálogos, vide reuniões com Rui Costa e Jerônimo Rodrigues recentemente. Do lado de Otto, Daniel Alencar começa a ganhar espaço, sobretudo pela simpatia e pela leitura de que pode assumir o lugar do irmão como deputado federal. Ottinho teve caminho aberto mais cedo por ser mais velho, mas agora cumpre missão fora do eixo eleitoral no Tribunal de Contas. Daniel já tem sido muito elogiado por onde passa e nem mandato tem ainda. A política, como sempre, já pensa na próxima geração e o PSD está virando partido de herdeiros ou nepo babies.
Mas Otto joga com uma carta que Coronel não tem: a relação sólida com Jaques Wagner. Um aliança longe de ser circunstancial, mas de um “ganha ganha” longo. Wagner escuta Otto, respeita Otto e confia em Otto e vice-versa. Coronel, em tesa, deveria seguir o mesmo caminho com o senador petista, mas a assimetria é evidente. Em política, esse tipo de capital não se improvisa.
Ao garantir o PSD alinhado ao governo Jerônimo Rodrigues, Otto mantém o partido no centro do poder estadual. Ao mesmo tempo, ao não fechar completamente a porta para que Coronel dispute o Senado de forma avulsa, ele sinaliza que não pretende impor uma solução à força. É uma abertura calculada, mas que pode embaralhar o jogo. Uma candidatura avulsa de Coronel tensionaria alianças e redesenharia relações.
O problema é que a relação entre Otto e Coronel já não tem a fluidez de outros tempos. O desgaste é real. As entrelinhas não falam alto, elas gritam. O PSD vive um momento decisivo: ou reafirma uma liderança clara e coesa ou corre o risco de transformar divergências internas em fragilidade externa.
Em 2026, o PSD não disputará apenas cargos. Disputará o controle do próprio destino. E essa disputa já começou. A conferir.
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