Por Marcelo Albert de Souza
Eu, Miloca e Linoca fomos passar uns dias – perto de uma semana – na deliciosa Ilha de Itaparica num janeiro desses, na casa dos meus sogros.
Eu já não tenho pele nem paciência para tomar sol, especificamente falando, ficar parado em qualquer praia principalmente durante o verão, sem ser numa bela sombra. Não me encaixo mais nas pequenas barracas individuais. Consigo até tolerar aquele barracão, com os 4 apoios, que alguns comerciantes praianos têm. Estou com planos voltados para essa aquisição, mas isso é coisa pro futuro.
Portanto, eu não frequentei, não aproveitei da ótima e calmíssima praia que fica bem defronte ao condomínio, apenas fiz uma programação de caminhadas nela. Essas se davam bem cedo ou no final da tarde, conforme a média de latas de cerveja absorvidas pelo alegre fanfarrão.
Estava rolando um fenômeno físico estranho e, ao mesmo tempo, engraçado comigo. Eu acordava com os pés zerados, sem dores nas pernas ou na coluna e saía para a missão. Voltava com o pé todo estropiado, cheio de bolhas, as pernas magoadinhas e com a coluna avisando: ‘Pega leve, seu gordo abusado’. Tais condições duravam praticamente o dia todo, eu mancando pela casa, meio torto e com gemidos sofridos. Apelava sempre para o remédio holandês contra a dor chamado Heineken……….
Sem nenhuma explicação plausível, quando acordava no outro dia, ‘pimba’, tudo zerado de novo. Lá ia eu, todo serelepe, com fone de ouvido, para as areias de Aratuba me juntar às pouquíssimas pessoas já acordadas – alguns pescadores também – que andavam ou corriam por ali. Não me chamo Ronaldo, mas realmente sou um fenômeno, acredite.
Os dias foram passando nesse looping, até que………
Um dia acordo com o ovo virado e decido: ‘Porra de caminhada nenhuma hoje cedo. Se der, vou mais tarde’. Virei pra lá e dormi de novo.
Como de costume, depois do café da manhã, praticamente todo o pessoal da casa – Milena, Lina, cunhados, sobrinho e sogra – arruma os trambolhos de praia e parte decidido para a felicidade salgada. Também de costume, restamos eu, meu sogro e empregados. Ele vai ver os jornais da fabulosa TV aberta tupiniquim e eu, futucar a internet.
Perto das 10:00, chega um cara para consertar o banheiro do meu quarto. Além de perder a privacidade, aproveito para também perder o juízo. Resolvo que vou andar naquele horário ‘de jovem’.
Boto o meu ridículo camisão folgadão de praia, minha sexy sunga e parto decidido para as areias escaldantes daquele branco mar. Chegando lá, não encontro Miloca nem Linoca, que tinham saído num passeio sem rumo, para variar. Apenas a minha sogra sozinha na sua cadeirinha de praia. Peço emprestado o protetor solar dela, pois não tinha achado o meu em casa. Passo no meu rosto, nas mãos, pescoço, orelhas e nas minhas pernas cabeludas de siri.
Pelo adiantado da hora, a maré tinha deixado a beira da água um tanto inclinada e, sabe-se lá por que, tinha também trazido várias pedrinhas para esse espaço.
Como um piloto que causa acidente, mesmo com essas condições totalmente adversas, resolvo partir.
Depois de, mais ou menos, uns 10 minutos começo a suar e um pingo cai no meu olho. Esse pingo era uma mistura de suor com protetor solar. Naturalmente passo a mão para limpar, sinto um leve ardor. Vale ressaltar que não estava usando boné.
Resolvo fazer o caminho completo que é chegar no Planeta dos Macacos (nome que dei a uma ponta da praia, um lugar bastante inóspito, com algumas palmeiras caídas no mar, o que me fez lembrar o final do citado filme) e voltar.
Um pouco antes de chegar nesse ponto final, vários pingos da minha testa caem nos meus dois olhos. A ardência agora é praticamente insuportável. Eles começam meio que ‘fechar’. Preciso voltar.
Mais um problema se junta a vermelhidão dos meus olhos. Meus pés começam a não aguentar a fricção com as pequenas pedras da beira da água. Para piorar, sua inclinação se torna um pouco maior.
Estou longe de tudo e de todos.
Inicio meu retorno um tanto desesperado. Estava numa situação parecida com a de quem cai na areia movediça. Se mexer muito, desce. No meu caso, conforme os pingos iam caindo nos meus olhos e eu limpava, mesmo que cuidadosamente, a dor piorava e eu enxergava cada vez menos. Se eu tentasse andar mais rápido, meus pés doíam mais também.
Eis o quadro ridículo exposto: um senhor acima do peso, com olhos orientais, de emaconhado, se arrastando na beira da praia. Tal quadro permaneceu por muito (coloque sofrimento nesse ‘muito’) tempo até surgirem, enfim, seres humanos na minha visão. Eu precisava de água limpa para limpar meus olhos e não notava essa possibilidade nos primeiros contatos com aquelas pessoas que olhavam com estranheza minha figura grotesca. Perseverei, mantive essa marcha de trator no trânsito até que, por fim……..AVISTEI UM PEQUENO BAR.
Me encaminhei até ele tal qual uma barata que leva uma chinelada, todo torto e chumbado.
Na caixa de som, incrivelmente tocava George Benson. Eu não tinha dinheiro, mas estava com o celular para poder ouvir a música nos fones. Minha imagem não era a melhor, mas cheguei simpático:
‘Meu amigo, você aceita pix? Poxa, está tocando George Benson, você é dos meus!’.
Aceitava.
‘Me dá uma água sem gás, por favor. Quanto é?’
Eram R$3,00.
Taquei água nas mãos, na testa e, lógico, principalmente, nos olhos. O alívio foi quase que imediato. Estava eu no deserto e não bebi água.
‘Me diga, por favor, qual é o seu pix’.
Me disse.
O aplicativo do banco rodou, rodou, rodou, rodou, rodou, rodou, rodou e não completou (Repete o refrão 3 vezes). O cara, por sorte, não esquentou a cabeça. Trocamos nossos números de zap. Eu falei pra ele em que condomínio estava e o número da casa. Pedi milhões de desculpas. ‘Não esquenta, moço’.
Depois de mais um tempo me arrastando, encontro finalmente minha dupla querida na praia. Conto toda a minha via crucis pra Milena. Ela tenta fazer o diabo do pix pelo celular dela. Não consegue também.
Já dentro de casa, consigo fazer o pagamento pela tarde e mando o comprovante para o dono do bar via zap. Ele visualiza. 3 dias depois.
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Escritor, advogado e DJ
