Por Gilfrancisco

Felisbello Freire foi um político, historiador e jornalista sergipana que documentou os conflitos da Primeira República Foi também Ministro da Fazenda no Governo de Floriano Peixoto, e deputado federal em várias legislaturas. Como jornalista Felisbello Freire colaborou em quase todos os jornais, inclusive O País. Fundou e dirigiu O Economista Brasileiro, A Folha da Noite, redigindo de 1901 a 1902, a Gazeta da Tarde. Felisbello Firme de Oliveira Freire, nome que representa uma personalidade de extraordinário relevo no mundo intelectual brasileiro.
=======
Felisbelo Firmo de Oliveira Freire, filho do coronel do mesmo nome e D. Rosa do Amarante Góes Freire, nasceu a 30 de janeiro de 1858 em Itaporanga e faleceu na Capital Federal a 7 do maio de 1916. Após realizar seus primeiros estudos, chegar à Bahia no vapor nacional Gastão de Orleans, informa O Monitor de 4 de março de 1877, um ano depois se encontrava ensinando as disciplinas Escrituração Mercantil e Música, no Atheneu Baiano. [1]Terminando os seus conhecimentos propedêuticos, se matriculou na Faculdade de Medicina. Nessa velha e tradicional escola, Felisbello Freire fez um curso brilhantíssimo, que lhe valeu o doutoramento, em 1881, com as notas as mais distintas, defendendo tese intitulada “Os caracteres clínicos da cirrose hipertrófica são suficientes para classificá-la como uma moléstia distinta da cirrose atrófica”. Durante o curso de medicina, Felisbello Freire publicou na revista baiana Renascimento, nºs 2 (15 de maio), 3 (1º de junho) e 4 (10 de junho) – 1ª Série, com o artigo “Fisiologia do Sangue”, 1880. [2]

Ideais Republicanos
Após a sua formatura, Felisbello regressou à sua terra natal. O republicanismo adquiria, então, um surto vigoro e encontrara nas escolas a maioria dos seus adeptos. Os moços aspiravam o domínio da democracia para esta região da América, encravada entre países de governo popular, que ainda se subordinava ao regime monárquico e se achava na eminência de vir a ter à frente dos seus destinos, em um terceiro reinado, imperantes que não correspondiam às grandes aspirações do liberalismo nacional e do republicanismo vigoroso.
Filho d menor das províncias do império, voltou a Sergipe imbuído das ideias então em voga e cultivadas pela juventude do decênio que antecedeu a proclamação da República. Em terras sergipanas, o jovem escolheu para sua residência a cidade de Laranjeiras, que era, naquela época, a mais próspera das localidades sergipanas. Aí começou a exercitar a sua clínica, que foi adquirindo, desde logo, uma grande extensão, dando-lhe, a um tempo, maior subsistência.
Congregou amigos, solidarizou-os em torno do seu ideal e constituiu o partido republicano de Sergipe, fundando, logo, dois jornais para a defesa dos interesses do partido e para empreenderem uma intensa propaganda da causa por que se empenhavam.
Nasce a República

O Manifesto Republicano de 1870, publicado no Rio de Janeiro, foi um documento fundante do movimento republicano no Brasil, marcando a oposição de liberais desiludidos à monarquia após a Guerra do Paraguai. Defendia o federalismo, a descentralização do poder, maior autonomia provincial e a república como solução para os problemas nacionais, sob o lema “Somos da América e queremos ser americanos”.
Em 13 de dezembro de 1889, toma posse no Executivo o médico Felisbello Firmo de Oliveira Freire, primeiro Presidente de Sergipe exercendo o cargo até 17 de agosto de 1890, nomeado pelo Governo Provisório Central. Período que vai da Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 até a promulgação da primeira Constituição Republicana, em 24 de fevereiro de 1891, tendo o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca como chefe de governo.
Em setembro de 1890 Felisbello Freire publica no Jornal do Comércio, do Rio, o artigo Estado de Sergipe, em que agradece ao brioso eleitorado sergipano na espontaneidade de sua eleição, combate vitoriosamente as acusações que forneceram pretexto à incorporação do partido nacional no estado.
Club Democrático

Em 1888, Felisbello Freire publicou em folheto, impresso na Tipografia do Laranjeirense, 37 pg. a conferencia Evolução da matéria. Leis e causas de suas formas, realizada no Club Democrático. Sobre a publicação diz o Maroinense:
Fomos obsequiados com um exemplar do opúsculo intitulado Evolução da Matéria, pelo seu autor o eminente escritor brasileiro dr. Felisbello Freire. Profundo, criterioso e erudito filósofo o ilustre dr. Felisbello Freire revela-se, não só nesta como em as interessantes produções de seu robustíssimo intelecto, um másculo talento, uma mentalidade preponderante e dirigente na discussão dos assuntos aventados pela moderna orientação cientifico-positivista de Darwin e Heechel, de que o benemérito e laborioso escritor dr. Felisbello Freire é um dos mais devotados educados sectário.
Sergipe que se ufana com jubilo e justificável orgulho de ser o mimoso berço de um grande número de notabilidades literárias e científicas, já inscreveu em seus fastos glorioso o nome brilhante de seu dileto e venerado filho dr. Felisbello Freire, a quem agradecemos penhorados, remessa de seu valioso trabalho. [3]
Rumo a Capital
Logo depois, Felisbello Freire transfere-se para o Rio de Janeiro, de onde não mais se afastou. Ele figurou na Constituinte republicana, onde fez ouvir, inúmeras vezes, a sua palavra, colaborando eficazmente na elaboração da Constituição de 24 de fevereiro de 1891:
A sua ação legislativa foi das mais preciosas, principalmente como obra de análise e como subsidiarista a inigualável de elementos históricos e de legislação comparada. Ele conhecia a evolução de todos os nossos atos legislativos e, ao mesmo tempo, a de atos análogos de vários países, principalmente dos Estados Unidos e Argentina. A sua erudição sobre o constitucionalismo americano era extraordinária, bem como era, talvez, o único especialista do constitucionalismo brasileiro sob o ponto de vista da legislação comparada das várias unidades da Federação entre si e com a Constituição federal. [4]
A Revolta Armada
A Revolta da Armada de 6 de setembro de 1893 foi um levante de unidades da Marinha brasileira contra o governo do presidente Floriano Peixoto, exigindo sua renúncia e novas eleições na República Velha. Liderada pelo contra-almirante Custódio de Melo, a revolta no Rio de Janeiro bloqueou a Baia de Guanabara, mas foi sufocada em março de 1894.
Sobre Floriano Peixoto, registra o florianista Manoel Curvello de Mendonça (1870-1914), na Página de Saudade à memória sempre amada, do excelso compatrício para comemorar o XXVIII ano do seu desparecimento a 29 de junho de 1921:
Ele foi ainda a resistência altiva ao estrangeiro, a quem soube falar com a franqueza rude, de que não havia exemplo nos anais de nossa diplomacia. Aos representantes coligados das nações, respondeu que receberia a bala a sua intervenção.
Aos estrangeiros sequiosos que vivem a farejar negócios rendosos, explorando as nossas crises financeiras e econômicas, mandou correr pelas escadas do Itamaraty.
E por tudo isso – triste verdade – houve brasileiros que te desamaram! Mas é porque te não compreendiam, herói sublime! Eles estavam costumados aos administradores cavilosos que se amoldam às curvaturas dos turiferários. Tu foste o inimigo dessa gente, porque sabias ver resolver e praticar conforme os impulsos da tua consciência.
O povo, porém, amou-o e cada vez mais te ama, à medida que vai sentindo como lhe é difícil encontrar um segundo Floriano Peixoto. [5]
Felisbello Freire, no prefácio à sua obra A Revolta de 6 de setembro de 1893, publicada em 1894 pela Editora Montalverne, ainda escrita sob o peso das responsabilidades, que lhe cabiam, como homem de governo na Presidência do Marechal, assim se refere a esse momento terrível:
O dia 6 de setembro alvorecera lúgubre sob o flagelo d mais estranha rebeldia; de vésperas, às ocultas, traiçoeiramente, e à noite, um oficial general d Armada, com um grupo de oficiais e alguns civis, apoderara-se dos navios de guerra surtos no porto e das embarcações nacionais de propriedade particular, e com esses elementos obtidos pela perfídia, ajudada da violência, arvorando-se em arbitro dos destinos da Pátria, intimava o representante do Poder Executivo a resignar a autoridade.
O Economista Brasileiro

Em 1905, Felisbello Freire lança uma revista semanal, valiosa publicação, cujos estudos constantes da vida econômica e financeira, prestando ao país um indispensável serviço há muito reclamado. Cinco anos depois reaparece depois de uma pequena interrupção motivada por excesso de trabalho do seu ilustre diretor. Este importante periódico dirigido pelo deputado, especialista do assunto, conhecido e incansável publicista brasileiro. A edição de 16 de setembro, traz o seguinte sumário: Bolsa de Mercadorias, Caixas de Pensões vitalícias, Colonização no Norte, Mistério da Agricultura, – Notas e Fatos, Os Estados, Seção Comercial.
Nesga fase, a publicação está bastante melhorada, contando com a colaboração de estudiosos do assunto, pretendia alcançar a proposta que se destinava. O Economista de 5 de novembro de 1912 denunciou o governo e à opinião pública, uma transação entre o Mosteiro de São Bento e um sindicato estrangeiro, pelo qual este ficaria de posse da Ilha do Governador e os dinheiros públicos sofreria um desfalque de 4 mil contos de Réis. [6]
No inicio de junho de 1914, O Economista Brasileiro reaparece num novo tamanho, diário de grande formato, vespertino, com ampla circulação no país e até no estrangeiro, conservando a sua feição característica e mais um vasto serviço de informação diária, com agente e correspondentes epistolares e telegráficos em todas as capitais e cidades importantes do Brasil.
Morte
Assim o Diário da Manhã de 10 de março, registra em sua página principal. Vejamos um trecho:
Teve vôs e quedas, como todos nós aumentados nele pelas maiores proporções do seu talhe moral.
Nesta triste época, entretanto, de escassez das capacidades, quando o âmbito do merecimento se reduz na medida inversa da incompetência avassaladora, quando a pobreza de aptos causa angústias à nação, a morte do ilustre patrício, uma das mais iluminadas celebrações brasileiras, é motivo de sincero entretecimento pra todos quantos estimam esta pátria malfadada.
Líder da bancada de Sergipe na Câmara Federal, o deputado Felisbello Firmo de Oliveira Freire, falecera na madrugada de 8 de maio de 1916, no Rio de Janeiro, aos 58 anos de idade e seu enterro realizou-se às 9 horas do dia seguinte no cemitério São João Baptista. Para os sergipanos seu desaparecimento foi triste e lamentável acontecimento a desaparição dum vulto luminar como o do jornalista e historiador Felisbello Freire.
O Dr. Felisbello Freire não foi somente o propagandista republicano, fundador do Grêmio Republicano de Laranjeiras, foi o ardente propugnador do regime que publicou naquela cidade, berço da propaganda, defendeu com brilho de sua vibrante pena e com o entusiasmo de suas convicções, a causa que abraçara.
Felisbello Freire era casado com Anna Curvello Freire, irmã do Dr. Manoel Curvello de Mendonça (1870-1914), republicano e companheiro de imprensa dos tempos de Laranjeiras. Do consórcio deixa três filhos – a Sra. Dr. Araújo Santos, a senhorita Maria da Conceição e o Sr. Mario Freire.

Alguns Livros Publicados
Felisbello Freire, não só na política alcançou destaque, sua privilegiada inteligência, pois a sua obra literária avulta e impõe-se.
– Os caracteres clínicos da cirrose hipertrófica são suficientes para classificá-la como uma moléstia distinta da cirrose atrófica? Dissertação. Proposições. Seção médica – Das complicações cardíacas nas diversas formas de nevrite e sua patogenia. Seção Acessória – Asfixia por submersão. Seção Cirúrgica –
Considerações acerca da eclampsia e seu tratamento. Tese apresentada à Faculdade de Medicina da Bahia em 30 de setembro a fim de obter o grau de doutor em medicina, sustentada no dia 28 de novembro, sendo aprovado com distinção. Bahia, 1881, 71 págs. in. 8º. peq. Imprensa Econômica.
–– História de Sergipe (1575-1855). Rio de Janeiro, 1891, 422 págs. in. 8º, compreendendo o “Apêndice” desde a pág. 349 até ao fim. Tipografia Perseverança.
–Relatório apresentado ao Vice-Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil por… Ministro de Estado das Relações Exteriores em junho de 1893. Rio de Janeiro, 1893, 108 págs. in. 8º, com 2 Anexos. Imprensa Nacional
– Relatório apresentado ao Vice-Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil pelo Ministro de Estado dos Negócios da Fazenda no ano de 1894, 6º da República. Rio de Janeiro, 1894, 175 págs. in. 8º. Imprensa Nacional.
– História Constitucional da República dos Estados Unidos do Brasil. Rio de Janeiro, 1894-1895, 3 vol. in. 8º, 381-387, 314 págs. Tip. Moreira Maximino, os 2 primeiros, e o 3º na Tip. Aldina. Há a 2ª Ed. do 1º vol. com 434 págs. in. 8º, impressa nessa última Tipografia.
[1] Impressos do Atheneu Baiano, 1878.
[2] Arquivo do autor.
[3] O Larangeirense. Nº 53, 22 de janeiro, de 1888.
[4] O País. Rio de Janeiro 8 de maio de 1916.
[5] Vida Carioca, Rio de Janeiro, nº 12, 29 de junho de 1921.
[6] Em agosto de 1912, O Economista Brasileiro se encontrava no nº 145, sempre digno de ser lido por todos quanto careciam de elementos para uma opinião esclarecida a respeito dos mais importantes problemas de economia e finanças.
——————————————————————————————————————————-
Jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Associação Sergipana de Imprensa – ASI, do Grupo Plena/CNPq/UFS e do GPCIR/CNPq/UFS. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe –gilfrancisco.santos@gmail.com

