Por Marcelo Albert
‘Lady, lady, lady, lady’. Joe Esposito canta música de Keith Forsey e Giorgio Moroder.
Eu já falei algumas vezes, vocês bem sabem disso: minha mãe quer que eu seja uma lady. Não basta eu ser a coisa mais linda e sensual de toda a Pituba, de todo o Itaigara, adjacências e universo, que eu seja comprida e massuda ao mesmo tempo, que meu olhar (até com remela) derrube qualquer ser com um mínimo de sensibilidade, que meu latido fino seja o som da mais linda sinfonia nos horários mais impróprios, que o meu espreguiçar seja o mais perfeito balé apresentado nos ladrilhos do mundo, que a minha lambida seja o melhor e maior calmante já inventado por Deus………Não, nada disso basta. Vão mexer no meu comportamento, afinal EU TENHO QUE PARECER UMA LADY, PORRA!

Olhem isso. De repente, do nada, foi iniciada aqui em casa uma busca intrépida visando encontrar um sujeito que pudesse adestrar meus pais. Com isso eles poderiam me enganar com alguns truques ensinados. Depois de utilizados, eu, passado um tempo e vários petiscos, viraria uma lady. ‘Senta, Lina!’, ‘Parada, Lina!’, ‘Deita, Lina!’, ‘Não morde o sofá, Lina!’ e eu, acreditem, o-be-de-cen-do. Ai, ai, fico pensando na possibilidade de alguém me chamar para fazer um vídeo de ‘Que Tiro Foi Esse?’. Eca, que vontade de vomitar……
Essa vida é muito engraçada, uma coisa acabou levando a outra. Depois de algumas entrevistas com os ‘mágicos da etiqueta canina’, um deles conseguiu convencer minha mãe que eu já podia passear na rua, bastando para isso que não houvesse contato direto com outros cães, uma vez que ainda não posso tomar a antirrábica.
Opa! Isso significa que…………ACABOU O CONFINAMENTO!!! Será?
Discussões, rezas, chororôs, lamúrias, receios, novela venezuelana rolando nas alturas das alamedas italianas da Pituba:
‘Mas a doutora disse que existia a possibilidade ínfima de uma bactéria escapar do Arquivo X do agente Mulder e voar até aqui’. ‘
‘Amanhã será o décimo quinto ou décimo sexto dia após a quinquagésima vacina contra tudo e contra todos que a Lina já tomou?’.
‘Deixamos o esquadrão do Ghostbusters em alerta?’.
‘Lassie passeou com quantos meses de vida?’.
Vasco ou Flamengo, coxinha ou mortadela, tango ou blues (Belchior preferia o primeiro), cara ou coroa………desço ou não desço?
Decidiram, desço. Afinal de contas, vou para a rua ou para a lua, gente?
Muito cedinho do outro dia, finalmente saí de casa sem ser carregada. Só passei da porta tranquilona, pois travei antes de entrar no elevador. Fui puxada pra dentro. Desci, saí pela garagem (agora carregada, pois o medo de andar na rua era imenso), fui, enfim, desbravar esse novo universo. Oh!
Minha mãe me colocou no chão e eu………amarelei. ‘Estátua!’. Alguém já brincou disso com os amiguinhos na infância? Pois bem, brinquei sozinha nesse dia. Pois é, depois de meses soltando (ou prendendo?) a energia do Furacão Lina dentro de casa, não sei o que faço agora.
É muito cheiro novo, muito som, muito calor, muita luz. Muito medo.
Só tenho tamanho, sou apenas um bebê que atropela coisas e produz pequenas cicatrizes nos pais. Lindas cicatrizes, por sinal. Meu pai pode protagonizar Scarface 2, a Missão.
Bom, passados uns vinte minutos dessa quase inércia, com o mesmo estilo ‘freio de mão puxado’ da ida, voltei pra casa com a minha mãe. Me lembrei que quando estava lá em baixo um humanoide passou bem longe, olhei para ele querendo brincar. Nada.
Meu pai me recebeu com uma festa que sinceramente não entendi. Estava contente acima da conta por que, oras? Fui para um lugar esquisito e morri de medo. Meu pai, além de lunático, é bobo.
‘Esse é um pequeno passo para o homem, mas um salto para a humildade’. (Neil Armstrong)
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Escritor, Advogado e DJ

