Quando não se sabe se o racismo maior vem do Estado ou da Sociedade

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Por Zulu Araújo

O assassinato da Doutora Andrea Marins Dias, no Rio de Janeiro, no último dia 15 de março, gerou uma forte polêmica nas redes sociais do país: ela foi ou não vítima do racismo institucional brasileiro?

Para muita gente de boa–fé (outras nem tanto) o motivo da Doutora ter sido alvejada pelo PM carioca deveu-se exclusivamente ao fato dela estar num carro com vidro fumê, fato este que impossibilitou sua identificação.

Mas, não foi. Não adianta querer tapar o sol com a peneira. A razão objetiva da sua morte, é resultado da soma da discriminação racial, mais desigualdade social, mais preconceito territorial, que está presente no Brasil, desde o período colonial. Em particular nas periferias e mais particularmente ainda, contra a população negra.

Não podemos esquecer que a Doutora Adriana foi morta no bairro de Cascadura (periferia do Rio de Janeiro), onde a maioria absoluta de sua população é preta e pobre (75% – segundo dados do IBGE).

Nessas regiões (lamentavelmente), a polícia tem licença para matar. Essa é regra, essa é a prática. E nesses territórios, a maioria dos policiais pensam que alguém dentro de um Toyota Corolla Cross, só pode estar em um carro roubado. E a sentença é imediata – “bandido bom é bandido morto”.

Embora a face mais visível desse racismo institucional se manifeste por meio do aparato policial, sua origem é muito mais profunda do que possamos imaginar. Vira e mexe somos alvejados tanto física quanto simbolicamente apenas pelo fato de sermos negros/as.

Em verdade, ainda hoje, continua valendo no Brasil o ditado popular: “branco correndo é atleta e preto correndo é ladrão”.

E olhe que a população afro-brasileira produziu e disponibilizou para a nossa sociedade, de forma generosa, talentos e sabedorias nunca vistas em nosso país, mas, nem por isso, conseguiu se viu livre do estigma racial que tem lhe custado sangue, suor e lágrimas

Ou seja, se é verdade que muita gente pensou que foi apenas uma fatalidade a tragédia ocorrida com Doutora Adriana, também é verdade que há muito cinismo e a hipocrisia de boa parte da elite brasileira, ao tentar justificar uma brutalidade como esta.

Afinal, o racismo institucional não é obra do acaso. Foi algo estruturado meticulosamente pela elite branca brasileira, ao longo de séculos e que vitimou e continua vitimando muita gente Brasil afora.

É a desumanização em estado puro.

Desumanização que continua presente por todo lado, até os dias atuais, seja nos 121 corpos destroçados e enfileirados como animais no meio da rua, após uma operação policial no Complexo da Penha e do Alemão (ano passado) ou em algo tão prosaico como se recusar a reconhecer que Machado de Assis era negro, mesmo ele sendo o maior escritor brasileiro e um dos maiores da língua portuguesa em todos os tempos,

Esse padrão no trato com a população negra, tem sido recorrente, não tem nada de acaso. É o racismo à moda brasileira, onde o preconceito, a discriminação e a exclusão territorial, compõem a forma clássica de tratamento dessa população.

Portanto, não foi apenas o vidro fumê que levou a Doutora Adriana a morte, mas sim o racismo institucional, o preconceito social e territorial que ainda está vigente no país. Fiquemos atentos, pois a próxima vítima pode ser você.

Toca a zabumba que a terra é nossa!
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Escritor, Arquiteto, Mestre em Cultura e Sociedade e Doutor em Relações Internacionais pela UFBA. Ex-presidente da Fundação Palmares.