O único crime da Doutora foi ser preta no Brasil

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Por Zulu Araújo

A barbaridade da qual foi vítima a médica Andrea Marins Dias, de 61 anos, que foi assassinada pela PM do Rio de Janeiro, na tarde do último domingo (15/03), em Cascadura é mais um daqueles casos que nos deixa estarrecidos e indignados, apesar de ser lugar comum na vida dos brasileiros.

Nos atingiu com a mesma força do verso do Baiana System “É pipoco, é soco na cara”.

Naquela cena onde um policial grita em alto e bom som – “sai senão vai morrer”, e que o Brasil inteiro presenciou, está impressa a natureza da ação policial no Brasil.

E a Dra. Andrea Marins Dias já estava morta. Atingida por vários tiros da PM.

É a violência em estado puro praticada pelo aparelho de segurança do Estado que deveria nos proteger. Para aqueles policiais, aliás, para a maioria dos policiais no Brasil inteiro, a regra que está sendo ensinada é:

Atire primeiro e pergunte depois.

O mais importante não é prender, submeter ao devido processo legal e punir de acordo com a lei. A regra é matar.

Mas, o fato concreto é que uma mulher negra, médica oncologista que dedicava sua vida para salvar vidas, perdeu a sua vida pela imprudência, estupidez e violência do Estado Brasileiro.

E o mais grave é que isso poderia ter acontecido em qualquer território do país: Amapá, São Paulo, Bahia, Ceará, Pernambuco, Alagoas, etc. E mais grave ainda é que tanto pode ser governado pela direita ou pela esquerda.

A letalidade policial é a mesma. Ganhou autonomia. E está fora de controle.

As denúncias sobre o recrudescimento do racismo e da violência no país vêm de longe e têm funcionado quase como um mantra no movimento negro brasileiro, embora boa parte da sociedade faça ouvidos de mercador para essa tragédia.

Até mesmo importantes setores do Executivo, Legislativo e Judiciário que deveriam combater essas violências estão estimulando-as, ora por ação, ora por omissão.

Importante dizer – as causas do racismo e da violência no país não são episódicas, mas históricas. Estamos em pleno mês de “celebração das mulheres” e nem por isso elas tem sossego. Muito pelo contrário, o feminicídio e a brutalidade contra as mulheres só tem aumentado. E se for negra, pior ainda.

Ignorar os efeitos nefastos que esse binômio está produzindo no Brasil (racismo e violência contra a mulher) não é uma opção política, é uma estupidez.

No Brasil, não só existe racismo, como ele é estrutural; condiciona, e normatiza praticamente todas as relações no país, sejam elas de caráter interpessoal, econômica, social, política, cultural ou religiosa”.

Os números do Atlas da Violência falam por si só: foram 1568 mulheres assassinadas no Brasil em 2025, sendo que 42% dessas eram mulheres negras e a Doutora Andréa Marins Dias, será mais uma a fazer parte dessa estatística em 2026.

Até mesmo organismos internacionais, como Unesco, Anistia Internacional e Unicef têm-se mobilizado por meios de campanhas, alertando o governo brasileiro para a gravidade da situação.

Lamentavelmente, as declarações das autoridades responsáveis terminam por funcionar quase como um passaporte para impunidade, tanto no que diz respeito à violência praticada contra as mulheres, quanto ao racismo da qual ela está impregnada.

Ainda bem que parcela significativa da sociedade brasileira tem não só se manifestado de forma indignada ante o atual quadro de violência contra as mulheres no país, mas também começa a se mobilizar para sua superação.

Toca a zabumba que a terra é nossa!

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Escritor, Arquiteto, Mestre em Cultura e Sociedade e Doutor em Relações Internacionais pela UFBA. Ex-presidente da Fundação Palmares.