Por: Mário Kertész
O verão sempre foi, para mim, mais do que uma estação. Era um estado de espírito. Começava em dezembro, com lojas abertas até tarde, luzes acesas, um menino de 12, 13 anos encantado com a cidade viva. Morávamos na Barra, entre mergulhos no Porto da Barra, e então a mudança ritual: a família inteira, malas, risos e expectativas rumo à casa de veraneio em Amaralina, quando a Pituba ainda era quase um vazio distante.
Era outro mundo. Barracas, acarajé, mar aberto, liberdade. Tudo tinha cheiro de começo.
Até que chegou janeiro de 1962.
Nada anunciava que aquele verão carregava um fim. Minha mãe, forte, viva, cheia de alegria pelas pequenas coisas, voltou de uma ida à feira dizendo apenas que talvez estivesse gripada. Deitou-se numa rede, me chamou para perto. Havia carinho em tudo: no jeito de falar, no apelido que inventava para mim, na simplicidade do gesto de dividir um descanso.
À noite, um mal-estar. Uma manga, talvez fosse o que ela achava. No dia seguinte, o cansaço persistia, uma sonolência estranha. Chamamos médica, depois outro médico, depois outro ainda. Era um tempo sem telefone fácil, sem urgência organizada. A medicina vinha em passos lentos, enquanto o tempo corria depressa demais.
Na segunda-feira, já não era apenas um mal-estar.
Fui ao hospital, buscar mais socorro, com 17 anos, dirigindo como quem tenta vencer o destino pela pressa. Um bilhete na mão, esperança no peito. Encontrei um neurologista. Voltamos juntos.
No caminho, uma sensação inexplicável me atravessou. Um pressentimento bruto, desses que não pedem licença. Como se algo já estivesse decidido, embora ninguém tivesse coragem de dizer.
Disseram.
“Tem poucas horas de sobrevida.”
Eu não entendi a expressão. Não liguei, de imediato, sobrevida à morte. Até perguntar, quase ingênuo, sobre quem se falava. E ouvir, com a secura que só a verdade tem:
“Esta senhora está morrendo.”
Era minha mãe.
Segunda-feira, 15 de janeiro de 1962. Meio-dia para tarde. Feriado da Ribeira. O verão seguia lá fora, indiferente. Dentro de casa, tudo acabava.
Um aneurisma cerebral, palavra que, na época, vinha quase sempre acompanhada de impotência. E veio. Levou embora a pessoa que eu conheci que mais amava a vida.
O cortejo saiu no fim da tarde, sob um vento forte que levantava poeira, como se a cidade também estivesse desarrumada por dentro. E eu, aos 17 anos, aprendia da forma mais dura que há verões que terminam para sempre.
Levei muito tempo para entender o que tinha acontecido. Talvez nunca tenha entendido por completo. Só sei que, daquele dia em diante, algo em mim mudou definitivamente.
Eu só vivi 17 anos com minha mãe. Mas foram suficientes para que ela se tornasse permanente.
Até hoje.
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Escritor, radialista, jornalista, administrador e ex-prefeito de Salvador
Do Metro1


