O futuro é para todos?

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Por Michelle Campos

“O Último Azul” (2025), dirigido por Gabriel Mascaro, apresenta uma distopia brasileira em que o governo determina o exílio de pessoas idosas em colônias, em uma política de exclusão baseada no etarismo.

O futuro costuma ser pensado como promessa, algo que, em princípio, nos inclui. No filme, essa ideia é tensionada, revelando que há vidas que deixam de caber nesse futuro.

A obra abre espaço para pensar sobre o envelhecimento não apenas como algo do futuro, mas como uma questão que já se coloca no presente. Ao colocar em cena uma política de exclusão, evidencia formas de etarismo já presentes no cotidiano, quando outros decidem pela pessoa idosa, sua opinião não é considerada ou sua autonomia é reduzida. A perda de direitos não surge de forma abrupta, mas como efeito de uma lógica que reduz o valor da vida à sua funcionalidade, sustentando decisões que silenciam o sujeito.

A narrativa apresenta uma distopia em que, a partir de determinada idade, decisões fundamentais deixam de pertencer ao sujeito. Pessoas idosas são retiradas da vida social sob o argumento de preservar o funcionamento da sociedade. A exclusão se organiza como política, e o controle, como cuidado. O que a narrativa explicita de forma radical não está distante do presente, reconhecendo situações em que a autonomia é relativizada e decisões são tomadas sem escuta efetiva, ainda que sustentadas pelo argumento do cuidado.

O futuro passa a operar como um território seletivo. Trata-se de perda de direitos, com efeitos concretos, e de um deslocamento ainda frequente de posição: de sujeito de direitos para alguém a ser conduzido, administrado, sem ser consultado.

A trajetória da protagonista Tereza não se constrói pelo confronto direto, mas pela forma como se reposiciona. Mesmo diante do que lhe é imposto, não se reduz a isso nem se fixa no lugar de objeto do cuidado, posição em que a pessoa idosa é colocada quando sua autonomia passa a ser presumida como incapaz. No limite de um destino previamente traçado, ela aposta em viver outras experiências, sustentando seu desejo, sua liberdade e a possibilidade de ainda escolher.  Há nesse movimento uma potência no envelhecimento: a de sustentar modos de existir, mesmo diante dos limites impostos. Nesse gesto, desloca-se o olhar sobre o envelhecimento: não como fim, mas como um campo ainda aberto de existência.

O caracol da baba azul rompe o previsível e abre espaço para novas possibilidades. O “último azul” permite ver o futuro, instaurando uma fissura no destino previamente dado.

Assim como a personagem, pessoas idosas buscam sustentar sua liberdade, autonomia e o direito de ser escutadas e reconhecidas em suas escolhas. A longevidade não é apenas individual, mas social, construída nas relações. Quando essas conexões se fragilizam, os efeitos aparecem não apenas no campo funcional, mas também no emocional.

A distopia apresentada na obra não projeta apenas um futuro possível, mas torna visível o que já está em curso.

O futuro é para todos?
Ou ele já vem sendo delimitado?

Talvez a questão não seja apenas viver mais, mas sustentar o desejo, a liberdade e a escolha em um cenário que insiste em limitá-los. Porque o tempo não encerra a vida, mas pode restringir quem ainda tem direito a vivê-la.
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Terapeuta ocupacional e coordenadora do Núcleo da Terceira Idade da Clínica Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria
Foto: Joilson Pereira