O debate poderia ter sido mais quente

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Por Victor Pinto

A quentura que me refiro ao debate da Band Bahia no título deste artigo, não está só no jogo de ataques, muito pelo contrário. Poderia ter sido mais quente de propostas. Poderia ter sido mais quente em apontar falhas e apresentar soluções mais concretas. 

De um modo geral, ACM Neto entrou como o candidato de quem todos esperavam domínio e Jerônimo Rodrigues como aquele sobre o qual pairavam dúvidas. Neto confirmou a conhecida eloquência. Jerônimo, porém, entregou uma atuação muito superior à expectativa, inclusive à de aliados com quem conversei depois do encontro.

Quatro anos depois do confronto de 2022, os papéis estavam invertidos. Jerônimo agora carregava o peso de defender um governo, suas entregas e omissões. Neto voltava como desafiante após uma derrota que contrariou o favoritismo daquela campanha. O reencontro mostrou que nenhum dos dois poderá atravessar a eleição protegido por discursos ensaiados.

Jerônimo organizou melhor as respostas, reagiu com rapidez e entendeu que debate também é disputa por imagens capazes de sobreviver nas redes sociais. Quando Neto o pressionou sobre a BR-324, Jerônimo não respondeu ao problema administrativo. Foi evasivo. Ainda assim, encontrou a saída politicamente mais valiosa da noite ao acusar o adversário de querer humilhá-lo e relacionar esse tratamento à sua origem negra, indígena e interiorana. Era o corte que sua campanha procurava para a performance.

Jerônimo também soube usar Ronaldo Mansur como escudo em dois momentos, evitando o enfrentamento direto com o principal rival. Atacou Feira de Santana e Vitória da Conquista, redutos importantes da oposição, e encontrou pouca resistência. Neto não defendeu seus aliados como deveria e preferiu desviar.

O ex-prefeito de Salvador, por sua vez, foi o mais propositivo. Seu melhor recurso foi dar nome e rosto aos problemas do governo. Ao citar a senhora de Valença, retirou a regulação do terreno das estatísticas e mostrou o drama de quem espera por atendimento. Neto sabe construir esse tipo de narrativa. A ironia recorrente, contudo, endureceu sua postura e deu algum sentido à acusação de Jerônimo sobre humilhação.

No palanque nacional, Neto caminhou com cuidado. Confirmou Ronaldo Caiado, não bateu em Lula e evitou romper com o eleitor lulista de que precisa. Mansur percebeu a brecha e tentou conter o chamado “LuNeto”, a combinação do voto no presidente com o apoio ao União Brasil na Bahia.

Mansur teve desempenho abaixo da referência combativa deixada por Kleber Rosa. Serviu mais de escada para Jerônimo, abusou dos apelidos e perdeu força em escolhas verbais pouco naturais. Acertou, entretanto, ao levar a Serra da Chapadinha para o centro do debate, abrindo um flanco ambiental sensível ao governo petista.

O encontro percorreu segurança, saúde, educação, infraestrutura, Planserv, violência contra a mulher e BR-324. Faltou o tema capaz de constranger todos os campos: corrupção. Overclean e Banco Master desapareceram do palco, poderia ter sido uma senhora artilharia de Mansur e o PSOL, mas passou batido. Esse silêncio protegeu candidaturas e empobreceu um jogo para as futuras ondas da opinião política e dos cortes. A conferir.
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