A condenada à morte que sobreviveu. Na Bahia tem precedente

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Por Biaggio Talento

O estranho caso de Christa Pike, que sobreviveu a duas injeções letais aplicadas pelos carrascos da Penitenciária de Riverbend, Tennessee, EUA para cumprimento da pena de morte a que tinha sido condenada por matar Colleen Slemmer nos anos 1990 criou uma situação inédita. Ela está se recuperando, recobrou a consciência, e o que se questiona agora é se vão tentar executá-la novamente, evidentemente depois de mais longos anos de adiamento devido às ações que os advogados dela vão impetrar contra a sentença.

Tomando emprestado (forçando um pouco a barra) a máxima de Otávio Mangabeira, “pense num absurdo, na Bahia tem precedente”, a história registra que em Salvador ocorreu um caso mais ou menos semelhante, devido a uma antiga tradição portuguesa segundo a qual se a execução de um condenado à morte por enforcamento falhasse, ele estaria livre da sentença. Quem criou essa tradição foi a Santa Casa de Misericórdia alegando que se tratava de um ato de caridade poupar o condenado que escaparia da pena capital por vontade divina. Era comum que nas procissões solenes, que levavam o condenado da cadeia para o patíbulo entre as autoridades civis, judiciárias e eclesiásticas seguisse um membro da Santa Casa com a bandeira da instituição para o caso raro de a corda do enforcado arrebentar na hora do enforcamento. Se isso ocorresse e o sujeito ou sujeita sobrevivesse à queda, estaria livre da pena de morte caso fosse coberto pela bandeira da Santa Casa.

Pois ocorreu que no século XVI, um homicida conhecido como Medeiros foi condenado à morte. Tentaram enforcá-lo três vezes e nada da execução ocorrer. Isso levou os membros da Santa Casa a cobri-lo com a bandeira da instituição, solicitando ao ouvidor-geral que comandava o processo de enforcamento a libertação de Medeiros. Alegaram que estava claro que Deus não queria a execução do condenado. Ele foi conduzido de volta à cadeia e o caso comunicado ao governador Men de Sá que, a princípio, concordou com o pedido da Santa Casa. Mas, logo depois mudou de ideia ordenando o enforcamento do réu numa forca que mandou construir às portas da cadeia.

Se Christa Pike tiver mais sorte que Medeiros, escapa do carrasco.
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Jornalista, escritor e pesquisador