A Bahia e as chapas dos trios

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Por Victor Pinto

Há campanhas que se vencem nas urnas e outras também ficam registradas pela força da comunicação política. Na Bahia, duas chapas separadas por 24 anos ajudam a contar essa contexto, cuja a lógica se repete, principalmente por consolidação de grupos hegemônicos, cada um no seu tempo.

Em 2002, o carlismo apresentou uma fórmula ousada: reunir três governadores em uma única chapa. Paulo Souto disputava o governo, enquanto Antônio Carlos Magalhães e César Borges concorriam ao Senado. Não bastava a engenharia política. Era preciso construir um conceito. Surgiu então o “trio que toca a Bahia”, embalado por mensagens como “o trio não pode parar” e “tem que continuar”. A metáfora dialogava com o trio elétrico, patrimônio da identidade baiana, e transmitia a ideia de comando, continuidade e força. Eu, ainda criança, pelas ruas de Coité, vendo a TV e ouvindo o rádio, me lembro do jingle e da força estética daquela campanha.

Agora, em 2026, o PT percorre caminho semelhante. Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa formam outra chapa de três governadores. Mas a narrativa escolhida é completamente diferente. Em vez do trio elétrico, entram em cena os “três irmãos”. O vídeo divulgado por Jerônimo aposta em uma estética afetiva, quase litúrgica, reforçada por uma trilha e uma linguagem que lembram o universo gospel. A mensagem deixa de ser a da autoridade para privilegiar a fraternidade.

As diferenças não param na publicidade.

Em 2002, o grande ativo eleitoral era ACM. Mesmo disputando o Senado, era ele quem irradiava votos para toda a chapa. Seu retorno tinha um componente dramático. Dois anos antes, havia renunciado ao mandato de senador em meio ao escândalo da violação do painel eletrônico do Senado, movimento que evitou a conclusão do processo de cassação. A eleição representava sua volta pelo voto popular e uma demonstração de que seu capital político permanecia intacto. E, detalhe, foi uma vitória do trio sem muito esforço.

Em 2026, a tendência é que esse papel de principal indutor eleitoral seja exercido por Rui Costa. Depois de oito anos à frente do governo e de ocupar um dos ministérios mais estratégicos da República, Rui chega à disputa do Senado como a principal vitrine administrativa da chapa petista. Assim como ACM em 2002, disputa uma vaga no Senado carregando consigo o peso político de um projeto maior.

A história, porém, não se repete exatamente, porém há uma conotação comparativa de maneira inevitável. O carlismo vendia continuidade pela liderança de um chefe político. O petismo vende continuidade pela ideia de uma irmandade. Um grupo apostava na figura do comandante. O outro aposta na imagem da família política. Antes mesmo de pedir votos, toda grande chapa precisa encontrar uma boa história para contar. A conferir.