Por Zulu Araújo
No seu livro “O Longo Caminho para a Liberdade” (uma autobiografia), o grande líder sul africano – Nelson Mandela, afirmou que: “A coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele”.
Embora essa afirmação se refira aos longos anos de resistência que ele fez ao apartheid na África do Sul, do qual foi seu maior inimigo, a frase também nos remete a uma reflexão profunda sobre o significado da coragem, do medo e da resistência nos dias atuais.
O cenário político mundial, com as ameaças, intimidações, sequestros, invasões e atentados de todas as ordens, onde o que menos vale é o respeito as regras minimamente civilizadas, estabelecidas no pós-segunda guerra mundial, é um indicativo de que o ano de 2026 não será fácil para nenhum democrata no planeta terra.
E o Brasil, não nos iludamos, é parte integrante desse cenário e consequentemente dos desafios que teremos que enfrentar.
As eleições gerais de 2026, quando escolheremos o novo Presidente da República, Senadores, Governadores, Deputados Federais e Estaduais do país, será um desses desafios. E o que temos visto e ouvido no cenário político brasileiro é amedrontador.
Até o momento, o ódio, às fake news, as ameaças, lacrações e agressões tem substituído os programas políticos, os projetos sociais e as propostas econômicas para o desenvolvimento do país. A impressão que passa é que o vale tudo de Gaza, da Ucrânia e da Venezuela, também valerá (ao menos no processo eleitoral), para o Brasil.
Nesse sentido, é importante registrar que no Brasil, o medo não é uma coisa abstrata. Ele está presente no dia a dia juventude negra que aprende desde cedo que seus corpos são os alvos preferidos da violência institucional. A letalidade policial por exemplo não é uma miragem, mas sim uma dolorosa realidade.
Do mesmo modo, o medo do desemprego, não é apenas um dado econômico como muitos imaginam, mas também um fator existencial, visto que afeta a dignidade, a identidade e a própria noção de pertencimento social do brasileiro, particularmente se ele for preto e pobre.
A violência contra mulher, epidemia que tem se expressado nos números absurdos do feminicídio que bateu recorde no Brasil em 2025: foram 1.470 casos de janeiro a dezembro, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, é outro elemento preocupante.
Portanto, a coragem que necessitaremos no Brasil nesse ano eleitoral, é não deixar que o medo imposto pela desigualdade, pelo racismo e pela violência determine quem somos, nem até onde podemos chegar.
E as eleições gerais no Brasil, em 2026, tem tudo a ver com isso!
Ao que tudo indica, essas eleições não escolherão apenas novos governantes, como se fosse apenas uma troca de guarda, mas sim qual futuro que desejamos para o Brasil, nos próximos 30 anos. Além disso, o fenômeno da extrema direita no mundo é muito mais do que uma percepção, é uma realidade. E essa realidade muitas vezes amedronta, pois faz uso sem cerimônia do racismo, da exclusão, da discriminação e da violência para fazer valer suas ideias e seus interesses.
É a necropolítica em estado puro e concentrado.
Por isso mesmo, precisaremos de muita coragem, na hora de escolher nossos representantes. Coragem para não aceitar discursos e práticas autoritárias. Coragem pra não permitir que a falta de oportunidade defina o tamanho dos nossos sonhos.
E coragem para escolher aqueles que representem verdadeiramente o futuro de um Brasil diverso culturalmente, plural politicamente, democrático (racial e socialmente) e que respeite e defenda a soberania nacional.
Toca a zabumba que a terra é nossa!
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Arquiteto, Mestre em Cultura e Sociedade e Doutor em Relações Internacionais pela UFBA. Ex-presidente da Fundação Palmares.
