A política do clique e o negativo vira estratégia eleitoral

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Por Victor Pinto

Lendo o The News no último fim de semana, me deparei com a velha máxima “if it bleeds, it leads” – se tem sangue, tem audiência – que agora começa ser validada ainda mais por dados. Um estudo publicado pela Nature Human Behaviour analisou mais de 100 mil manchetes e milhões de impressões para chegar a uma conclusão: quanto mais negativa a linguagem, maior a chance de clique. Cada palavra negativa adicional aumenta o engajamento; palavras positivas fazem o efeito contrário.

Esse dado, por si só, já explica muito do que estamos vendo na política brasileira e muitos dos perfis, sites e programas sensacionalistas.

No corte politico, não é exagero dizer que campanhas passaram a ser desenhadas com base nessa lógica. A disputa eleitoral deixou de ser apenas um campo de convencimento. A atenção, principalmente o campo digital, é capturada mais facilmente pelo conflito do que pela proposta. É aqui que os dois livros ajudam a organizar o raciocínio.

Em Todos contra todos, da editora Leya, Leandro Karnal aponta que o ódio não é exceção no cotidiano, mas é parte estruturante das relações sociais, muitas vezes disfarçado e naturalizado. Ou seja: o combustível já existe.

Já em Os engenheiros do caos, da editora Vestígio, Giuliano da Empoli mostra que esse combustível passou a ser usado de forma estratégica no mundo inteiro até chegar no Brasil. O caos não é acidental. Esse caos é planejado, testado e distribuído com precisão.

Quando esses três elementos se encontram (viés biológico, dado empírico e estratégia política) o resultado é um ambiente onde o negativo vira um método replicado. Não é só que o eleitor clica mais em conteúdo negativo. É que campanhas passaram a produzir conteúdo pensado para isso: Narrativas de crise permanente, ataques recorrentes, linguagem carregada e tudo calibrado para gerar reação imediata.

O problema é que esse modelo não se limita ao momento eleitoral, pois ele contamina o debate público. A exposição contínua a conteúdos negativos distorce a percepção da realidade, amplia a sensação de instabilidade e reforça a polarização. A política deixa de ser espaço de mediação e passa a operar como arena de tensão constante.

No fim das contas, não se trata apenas de uma escolha dos estrategistas, mas de um ciclo. A política oferece o que engaja e o que engaja, como mostram os dados, raramente é o equilíbrio.Resta saber se, em algum momento, haverá incentivo real para sair dessa lógica ou se o negativo continuará sendo o caminho mais curto entre a mensagem e o voto. A conferir.