Por Victor Pinto
Vocês já perceberam um arrefecimento nos últimos dias nas críticas e nas colocações dos principais agentes políticos da Bahia sobre a história do Banco Master? Não sei, mas tenho sentido isso. Mas esse arrefecimento está bem longe de ser natural. Na minha humilde opinião, repare bem, trata-se de um movimento de contenção, quase instintivo, depois que os ataques começaram a atingir lados demais ao mesmo tempo.
A cronologia ajuda a entender. Vamos lá. Primeiro, vieram as revelações envolvendo o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, com a informação de repasses que ele diz serem fruto de consultoria. Movimentação apontada pelo Coaf e divulgada pelo O Globo. Em seguida, uma semana depois, o foco se deslocou para o entorno do senador Jaques Wagner, a partir dos valores recebidos pela empresa da sua nora, a BK Financeira. Notícia veiculada pelo Metrópoles. Pronto. A partir daí, o caso deixou de ter dono e a artilharia virou para todos os lados.
A reação inicial foi previsível. Wagner, antes de sair a notícia envolvendo pessoas próximas a ele, chegou a dizer que aquilo era “só a ponta do iceberg”, indicando que mais fatos poderiam atingir a oposição. Depois amansou o tom. O prefeito Bruno Reis saiu em defesa de Neto, sustentando que os valores foram declarados, inclusive no Imposto de Renda, e questionando a lógica das acusações. Ao mesmo tempo, o governador Jerônimo Rodrigues adotou um discurso mais cuidadoso, apostando na linha de que a Justiça deve esclarecer os fatos. O ministro Rui Costa, quando indagado sobre a venda do CredCesta, disse que tudo ocorreu na lisura e se livrou, quando governador, de um supermercado falido.
Só que, enquanto as falas públicas subiam de tom, principalmente nos memes e falas de aliados e desafetos, nos bastidores o clima já era outro. Interlocutores dos grupos petista e netista começaram a atuar para “acalmar os nervos”, como se diz. Chá de boldo para todo mundo. E o efeito apareceu rápido. Na quarta-feira, algumas lideranças importantes do cenário já tratavam de segurar a artilharia, num acordo informal para interromper os petardos. Nacionalmente isso teria luz através da CPI do Crime Organizado, por exemplo.
Esse “cessar-fogo” não nasce de boa vontade, mas tem a gênese do risco. Quando uma crise começa a atingir simultaneamente figuras como ACM Neto e Jaques Wagner, ambos peças-chave de 2026, o confronto aberto deixa de ser vantajoso. O desgaste passa a ser compartilhado, e ninguém controla mais o tamanho do estrago. Sabe como começa, mas não sabe como termina.
Além disso, há um fator eleitoral evidente: a equipe de Neto já trabalha com a ideia de que será preciso administrar o tema no campo do marketing, inclusive nas bençãos de João Santana, alguém acostumado a lidar com crises desse tipo. Do lado governista, o movimento é evitar que o caso grude diretamente na gestão de Jerônimo, mantendo o debate no plano das investigações.
O resultado disso é o que estamos vendo: menos ataque direto, mais cautela, mais discurso institucional. A crise não foi diminuída, ela foi contida. A dúvida é quanto tempo isso dura. Porque, se novas informações surgirem (e há sinais de que ainda há coisa por vir), esse acordo silencioso pode ruir com a mesma rapidez com que foi construído. E aí, a lógica volta a ser a do confronto aberto.
Por enquanto, o que existe em solo baiano é um cessar-fogo por sobrevivência. O que compromete uma noção básica de transparência real dos envolvidos nesse escândalo. Estariam jogando poeira para debaixo do tapete numa velha equação de guarda quando o establishment se sente ameaçado. Difícil vai ser alguém agora sacudir esse tapete. Será? A conferir.


