ABI 96 anos: passado, presente e futuro

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Por Suely Temporal

Ao completar 96 anos de existência, a Associação Bahiana de Imprensa atravessou períodos democráticos, momentos de autoritarismo, crises políticas, econômicas, profundas transformações sociais e tecnológicas. Em diferentes momentos, a ABI assumiu a responsabilidade de defender a liberdade de imprensa e o direito à informação, que são pilares fundamentais de qualquer sociedade democrática. Quando a liberdade de imprensa é ameaçada, é a sociedade que perde o direito de conhecer, questionar e fiscalizar aqueles que exercem o poder.

Em quase 10 décadas, a maior contribuição que a ABI tem dado ao longo de sua história seja justamente o fato de manter sua posição de independência e vigilância. A instituição tem o dever de defender a imprensa, mas também de lembrar que a liberdade vem acompanhada de responsabilidade e ética.

Mesmo sendo uma entidade quase centenária, a missão histórica da ABI permanece absolutamente atual, mas os desafios mudaram. Hoje, além de defender a liberdade de expressão e de imprensa, precisamos enfrentar um ambiente de comunicação marcado pela velocidade, pelas redes sociais, pela desinformação e pela circulação massiva de conteúdos sem apuração.

A resposta da ABI não pode ser a censura e nem a tentativa de controlar opiniões. Ao contrário: precisamos de mais liberdade, mais jornalismo profissional, mais educação para a informação e mais responsabilidade na produção e no compartilhamento de conteúdos. Também considero fundamental separar divergência de ataque. O jornalismo precisa ser livre para investigar, questionar e criticar governos, empresas, instituições e qualquer pessoa que exerça uma função pública. Ao mesmo tempo, jornalistas precisam exercer sua atividade com rigor, ética, responsabilidade e compromisso com a verdade dos fatos.

Em um ambiente de polarização tão intensa, a ABI tem sido um espaço de diálogo. Não precisamos pensar todos da mesma maneira para defender princípios comuns. A liberdade de imprensa não pertence à esquerda, à direita ou ao centro. Ela pertence à democracia. E o compromisso com o interesse público está no coração do jornalismo. Uma imprensa forte é aquela que ajuda o cidadão a compreender a realidade, fiscaliza as instituições, dá visibilidade a problemas, pessoas e situações que muitas vezes permanecem invisíveis e amplia o espaço para diferentes vozes da sociedade. A ABI contribui para isso à medida em que possibilita e oportuniza o debate, a denúncia e a crítica para que o jornalismo seja exercido com liberdade, segurança, qualidade e responsabilidade.

A longevidade da ABI está relacionada à sua capacidade de compreender que preservar seus valores e de não permanecer imóvel. A imprensa hoje não é mais aquela de 1930. É muito diferente. Mas, os princípios fundamentais continuam os mesmos: liberdade de imprensa, liberdade de expressão, defesa da democracia, valorização do jornalismo e preservação da cultura e da memória da imprensa baiana. O que muda são os instrumentos, as linguagens e os desafios de cada época.

A ABI tem acompanhado essas transformações da comunicação sem perder sua identidade. É essa combinação entre tradição e capacidade de renovação que faz com que ela se mantenha viva. Temos uma história que precisa ser respeitada, mas o nosso compromisso maior é com o futuro. Por isso temos buscado ser uma entidade cada vez mais plural e diversa. Exatamente como a comunicação é hoje.

Ser a primeira mulher a presidir a Associação Bahiana de Imprensa, depois de 95 anos de história, é uma honra, mas também uma responsabilidade que ultrapassa a dimensão pessoal. A presença de uma mulher na presidência da ABI representa o reconhecimento de uma trajetória construída por muitas jornalistas que vieram antes e que ajudaram a fortalecer a imprensa baiana. Não cheguei sozinha a esse lugar. Há uma história de mulheres que trabalharam e ainda trabalham, muitas vezes enfrentando obstáculos adicionais (apenas por serem mulheres), para conquistar seu espaço no jornalismo.

Espero que essa presença também sirva como estímulo para as novas gerações. Que meninas e jovens jornalistas possam olhar para a presidência da ABI e compreender que os espaços de liderança também lhes pertencem. Acredito ainda que diferentes experiências e perspectivas enriquecem uma instituição. Uma gestão conduzida por uma mulher não precisa ser definida apenas pelo gênero, mas certamente pode trazer novos olhares para temas como inclusão, diversidade, participação, renovação geracional e, porque não, alguma leveza.

Até o centenário que ocorrerá em agosto de 2030, temos um caminho importante a percorrer. Entre nossas prioridades estão a aproximação com as novas gerações de jornalistas, o fortalecimento do diálogo com universidades e instituições de ensino, a valorização dos profissionais que atuam em diferentes plataformas e a ampliação dos espaços de debate sobre os desafios contemporâneos da comunicação.

Também queremos fortalecer a programação cultural e institucional da ABI ampliando iniciativas como a Série Lunar – uma parceria com a Escola de Música da Ufba – aproximar cada vez mais a sociedade do nosso patrimônio histórico e ampliar a visibilidade do acervo que esta instituição preserva. A ideia é que a ABI seja, cada vez mais, uma casa aberta: aberta aos jornalistas, profissionais da comunicação, aos estudantes, aos pesquisadores, às diferentes gerações e à sociedade. Uma instituição com 96 anos de história deve olhar para trás com respeito, mas também precisa olhar para frente com coragem.

Encaro como minha a tarefa preparar a entidade para que ela consiga chegar lá e celebrar dignamente esse marco tão importante. Para isso, o principal desafio é a sustentabilidade financeira. Temos avançado nas negociações com a prefeitura que é inquilina do nosso edifício sede, quanto ao reajuste do aluguel que está congelado há 11 anos. Por outro lado, temos atuado no aumento da base de associados. Também temos as cotas de patrocínio do nosso site e a nossa revista Memória da Imprensa, cujo projeto pretendo retomar no próximo ano.

Outros desafios importantes são a reabertura do Museu da Imprensa Baiana, a restauração e reabertura do Museu Casa de Rui Barbosa, implantando da Casa da Palavra Rui Barbosa, projeto gestado pelo meu antecessor e colega Ernesto Marques. Também esse edifício, Ranulfo Oliveira é uma jóia que precisa de atenção. Como se não bastasse abrigar a nossa sede, ele abriga a biblioteca Jorge Calmon, especializada em jornalismo e comunicação, o laboratório de restauro de documentos, livros e periódicos e uma curiosidade: no sexto e sétimo andares, que conta com pé direito duplo, funcionou o plenário da Assembleia Legislativa antes de ir para o Centro Administrativo da Bahia. Nesse mesmo andar, na parte externa, contamos com um painel de Mário Cravo Jr.    

Uma entidade com essa história e esse patrimônio precisa encontrar formas de garantir sua manutenção e, ao mesmo tempo, ampliar sua capacidade de atuação. Por isso temos buscado também apoio no setor privado pois temos ainda uma responsabilidade enorme com a memória. A ABI guarda parte importante da história da imprensa baiana e, consequentemente, da própria história da Bahia. Preservar, organizar, digitalizar e democratizar esse patrimônio é uma missão que está entre nossas prioridades. Quero que cheguemos ao centenário não apenas celebrando 100 anos de existência, mas apresentando uma instituição fortalecida e preparada para os próximos 100. O centenário não deve ser apenas um ponto de chegada. Deve ser o ponto de partida para um novo ciclo da ABI.
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Jornalista – Presidente da ABI – Associação Bahiana de Imprensa