Águas de Oxalá. A celebração maior ao Orixá da Criação

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Por Zédejesusbarreto
Êpa Babá!
Ùltima sexta-feira de setembro é o dia da festa, o ritual das Águas de Oxalá nos terreiros Ketu/Nagô da Bahia.

“Obatalá, Orixaalá, Orixanlá, criado por Olodumaré à sua semelhança, Orixá do pano branco, da cor branca, que reúne em si todas as cores do espectro do arco-Íris em união, que remete à Paz, sim, porque a união induz a Paz e Harmonia. Criador do ser humano e de todas as formas de vida, ordena o pensamento, a inteligência e as ideias. Representa a ética, a moral e os bons costumes, o que é superior, a fidelidade, os valores, a pureza e a ordem espiritual. É a manifestação pura da sabedoria, a síntese de tudo e está presente em todos os seres humanos.

Tem como elemento o ar, e sem ar não há vida. Simplicidade é a sua essência !

Reflitamos em Obatalá, absorvendo sua mensagem de paz, através da união contida na cor branca, do respeito e do perdão”…

(Texto de Ângela Ferreira, Iyá Kekerê do Gantois, trecho de escrito na contracapa do CD ‘Obatalá, uma homenagem a Mãe Carmem’, filha de Oxaguian, o Oxalá jovem)

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As águas de Oxalá

  Na madrugada da sexta-feira, a última de setembro, o Ilê Axé Opô Afonjá celebra a liturgia das Águas de Oxalá, um ritual de rara beleza que encantou o fotógrafo Verger e o pintor Carybé ainda nos anos quarentas do século passado, quando reinava na Roça de São Gonçalo a lendária Mãe Senhora.

  A cerimônia tem origem na mitologia Iorubá (Ketu/Nagô): O velho pai (babá) Oxalá teria sido preso por engano e humilhado, por artes de Exu, mas foi resgatado por Xangô, o rei de Oyó, que ordenou silêncio absoluto no reino, como expiação, e que o Velho fosse abrigado, banhado três vezes com águas puras e depois envolto em panos brancos.

  O ritual começa logo na meia noite de quinta e só termina na alvorada da sexta. Em cortejo, o silêncio quebrado apenas pelo som do adjá (um chocalho de ritos), os filhos da casa, de torço e roupas brancas novas, vão à fonte encher suas quartinhas, levando-as ao barracão onde estão postas as comidas, água e oferendas a Oxalá. Depois, todos reverenciam o Pai Velho com cantos e danças até os primeiros raios de sol.

Todos os grandes terreiros baianos de nação Ketu/Nagô (como o Gantois, a Casa Branca…) cumprem esse ritual, todos os anos.

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Do livro “Orixás, Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo”, de Pierre Verger:

“Oxalá, Orisanlá ou Obatalá. O grande Orixá ou o Rei do Pano Branco, ocupa uma posição única e inconteste do primeiro a ser criado por Olodumaré, o Deus Supremo.

No Novo Mundo, na Bahia particularmente, Oxalá é considerado o maior dos Orixás, o mais venerável e o mais venerado. Seus adeptos usam colares de contas brancas e vestem-se, geralmente, de branco. Sexta-feira é o dia consagrado a ele. Esse hábito de se vestir de branco na sexta-feira estende-se a todas as pessoas filiadas ao candomblé, mesmo aquelas consagradas a outros orixás, tal é o prestígio de Oxalá.

… Diz-se na Bahia que existem dezesseis Oxalás. Os mais conhecidos são Oxalufã, o Oxalá velho e sábio, e Oxaguian, o jovem guerreiro”.

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OXALÁ  

                     (divindade, orixá do panteón Ketu/Nagô, dos iorubanos d’África)

Dia: Sexta-feira

Cor: Branco leitoso.

Simbolo: Opáxoró

Elementos: Atmosfera e Céu

Domínios: Poder procriador masculino, Criação, Vida e Morte

Saudação: Epa Bàbá

  Oxalá é o detentor do poder procriador masculino. Todas as suas representações incluem o branco. É um elemento fundamental dos primórdios, massa de ar e massa de água, a protoforma e a formação de todo o tipo de criaturas no Aiyê e no Orun.

  Ao incorporar-se, o Orixá assume duas formas: Oxaguiã, um jovem guerreiro, e Oxalufã, um velho sábio apoiado num bastão de prata (o Opaxorô).

  Oxalá é alheio a toda a violência, disputas, brigas; gosta de ordem, da limpeza, da pureza. A sua cor é o branco e o seu dia é a sexta-feira, seus filhos devem vestir branco nesse dia. Pertencem a Oxalá os metais e outras substâncias brancas.

  Nos cultos da África, todos os Orixás relacionados com a criação são designados pelo nome genérico de Orixá Fun Fun. O mais importante entre todos eles chama-se Orixalá (Òrìsanlà), ou seja, o grande Orixá, que nas terras de Igbó e Ifé é cultuado como Obatalá, rei do pano branco. Eram cerca de 154 Orixás Fun Fun, mas no Brasil e na Europa a quantidade reduz-se significativamente, sendo que dois, Orixá Olùfón, rei de Ifón (Oxalufã) e Orixá Ógìyán, o comedor de inhame e rei de Egigbó (Oxaguiã), se tornaram as suas expressões mais conhecidas.

  A designação de Orixá Fun Fun deve-se ao facto de a cor branca se configurar como a cor da criação, guardando a essência de todas as demais. O branco representa todas as possibilidades, a base de qualquer criação. O nome Orisanlá foi contraído e deu origem à palavra Oxalá, e com esse nome o grande Deus-pai passou a ser conhecido no Brasil. Todos os Orixás Fun Fun (África) foram reunidos em Oxalá e restaram no Brasil as suas duas configurações principais: Òsálufón, Osagiyan, sendo este último, jovem e guerreiro, filho do primeiro mais velho e paciente. Todas as histórias que relatam a criação do mundo passam necessariamente por Oxalá, que foi o primeiro Orixá concebido por Olodumaré e encarregado de criar não só o universo, como todos os seres, todas as coisas que existiriam no mundo.

  A maior interdição (quizila) de Oxalá é o azeite-de-dendê, que jamais deve macular as suas roupas, os seus objetos sagrados e muito menos o seu Alá. A única coisa vermelha que Oxalá permite, é a pena de Ikodidè, prova de sua submissão ao poder genitor feminino.

 No Xirê (a roda de dança que reúne todas as divindades), Oxalá é homenageado por último porque é o grande símbolo da síntese de todas as origens. Ele representa a totalidade, o único Orixá que, como Exú, reside em todos os seres humanos. Todos são seus filhos, todos são irmãos, já que a humanidade vive sob o mesmo teto, o grande Alá que nos cobre e protege, o céu.

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   Sobre essa divindade do pano branco, nosso Pai, esse belo texto, feito oração, de autor desconhecido, um irmão de Axé, inspiração sagrada:

  “O ÀLÚFÓN, O SÁBIO

   Aquele que existia antes de o mundo ser mundo, antes dos seres o habitarem.

Aquele que existia antes dos caminhos se desenharem traçando destinos para a humanidade.

  O àlúfón é Òrì à fúnfún, um dos deuses primordiais, o mais velho do panteão yorubá. Velho sábio, sente nas costas o peso do tempo.

   Acumulou experiências, entendeu que a sabedoria não menospreza os sentimentos vitais.  Aprendeu a não desdenhar de È ù.

  O àlúfón ensina que o etéreo e o carnal devem se equilibrar, se completar, se respeitar.

   O àlúfón rege o início e o final de todos os ciclos. O vemos na cor branca.

   No branco do pombo, no branco do traje, no sentimento puro.

   O branco está onde o àlúfón está; no nascimento do iniciado, na despedida do rito fúnebre.

   Com o seu cajado mítico, òpá óró, une céu e terra, homens e deuses, esperança e realidade. Purifica as almas, torna as águas fecundas.

  O àlúfón está na ética, no bom senso, na paciência, na tranquilidade de quem conhece o caminho. O àlúfón rege o dia, a clareza dos pensamentos, a luz da sabedoria. É lento como a prudência, decidido como o caracol.

   O àlúfón está na serenidade do ancião, na verdade absoluta.

   O àlúfón é o bom ouvidor, o grande pai ponderado. Não se exalta, não se surpreende, não tem pressa; sabe que o tempo certo chega quando tem que chegar.

  O àlá, seu manto branco, é símbolo de sua pureza.

 O àlúfón é nosso sentimento mais límpido, é a sinceridade das intenções, é o desejo de acertar.

    Eèpàà Bàbá! (Saudamos o pai!)

   E e é o! (Obrigado!)

  Obrigado, Pai de Bondade, por nos mostrar a dádiva da sabedoria!
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Ilustração: Caribé