As boas recordações – Maria Fernanda Lucena

  • Post category:CULTURA
No momento você está vendo As boas recordações – Maria Fernanda Lucena

Por Claudius Portugal

As duas séries aqui expostas, embora de gêneros da pintura diferentes, partem do mesmo exercício, ao qual Lucena se compromete, em seu trabalho de criação imagético, prospectar memórias, suas e alheias, ouvir histórias, rever imagens, acionar lembranças pessoais e adentrar a intimidade de desconhecidos.

A partir do seu arquivo pessoal, físico e imaterial, garimpos fotográficos e documentais, Maria Fernanda recorre inicialmente à colagem, procedimento creditado com frequência somente ao movimento e a artistas surrealistas europeus do início do século XX, embora Mary Delany (1700-1788), artista inglesa e uma das pionei ras da técnica, já a executasse com excelência dois séculos antes para criar retratos e paisagens imprecisas. Em Boneca de Papel, série executada em dois formatos diferentes, apresentada nas paredes e entre os vazios dos seus suportes, os retratados emergem dos fundos ora monocromáticos, ora em tons vibrantes. Os rostos em formato 3×4 emprestam personalidade para corpos que ostentam, com uma ampla paleta de cores, trajes, sapatos, acessórios ricos em detalhes e, em alguns momentos, nos evocam certa familiaridade.

As boas recordações

As figuras cheias de vigor incorporam a beleza e o glamour que guardam as páginas das revistas fashion, uma maneira que a artista encontra de rememorar a estreita ligação com a moda, de onde vem parte da sua formação. Embora feitos de imagens fragmentadas e de uma pintura que entrega e destaca as fissuras, são corpos altivos que se afirmam inteiros. No segundo conjunto de trabalhos, nomeados por Maria de Intermédios — o que liga um ponto a outro, o que é autobiográfico e o que toma emprestado —, encontramos recortes dos seus locais afetivos e ordinários e símbolos públicos, cartões-postais, como o Elevador Lacerda. Há também um cuidado em saudar a cidade que agora a recebe. Feitas de pinceladas curtas e cores que se repetem, as paisagens de grandes dimensões funcionam como um refúgio para os seus habitantes, que miram sempre o horizonte.

“as paisagens de grandes dimensões funcionam como um refúgio para os seus habitantes” A cineasta Agnès Varda, no documentário Les plages d’Agnès, de 2008, declara: “Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens”. Lucena consegue encontrá-las sobrepondo tempo, espaço e movimentos, criando situações nas quais é possível conciliar passado e presente.

Nos versos da poeta mineira Adélia Prado, A memória é contrária ao tempo; quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente, as obras de Maria insistem em retornar ao que lhe é caro, como as boas recordações.

C.P.: As Boas Recordações, seguindo o título, é uma mostra que revisita e amplia séries anteriores como a inserção de obras de “Boneca de Papel”. Duas séries são aqui ex- postas. Quais as diferenças e semelhanças em sua continuidade nos trazem estas séries e estas pinturas?

M.F.L.: As duas séries nasceram do mesmo processo de pesquisa: o garimpo de fotografias, slides e objetos encontrados em feiras de antiguidades, onde busco trazer para a minha pintura uma reflexão sobre a imagem e seus possíveis mecanismos de lembrança. É desse mesmo ponto de partida que elas se aproximam.

O que as diferencia é o caminho que cada uma percorre a partir desse material. No caso específico da série Boneca de Papel, a ideia surgiu quando encontrei, no Mercado da Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro, uma edição antiga com bonequinhas de papel, iguais as que eu brincava na infância. A princípio, pretendia utilizá-la como um objeto dentro de uma série de relicários que produzia na época. Percebi, porém, que, em vez de utilizá-lo como objeto de lembrança fazendo parte de alguma caixa ou pintura, ela poderia dar origem a uma série inteira. Foi também uma oportunidade de reencontrar entrevista de Claudius Portugal com Maria Fernanda Lucena a minha formação em Design de Moda e os anos em que trabalhei com figurino.

Já na série Intermédios, utilizo como referência imagens encontradas em slides antigos. Apontando, mais em direção as paisagens e para os encontros entre diferentes tempos e lugares. Também existe uma diferença nos procedimentos da pintura. Em Boneca de Papel, a pincelada é mais direta, com menos camadas de tinta. Em Intermédios, o volume de tinta é maior e a construção da imagem acontece por meio de sucessivas camadas tornando o processo pictórico mais lento e volumoso. “Em Boneca de Papel, a pincelada é mais direta, com menos camadas de tinta. Em Intermédios, o volume de tinta é maior” .

C.P.: As pinturas são de tinta a óleo sobre papelão/organza/ tela/linho, sustentadas por molduras que também com- põem os trabalhos, e imagens que nos faz perceber, em es- cala humana, os trabalhos. Assim, a moldura, que seria um ornamento de madeira, se transforma em parte integrante dos trabalhos, utilizado para impulsionar a construção de uma narrativa, alguns casos com verso reverso das pinturas. Esse extrapolar da imagem para fora do campo, mais as que são sobrepostas, se inserem na obra a indicar uma representação? Uma identidade? Um jogo de pers nagens e de cenas?

M.F.L.: As molduras entraram no meu trabalho seguindo a mesma lógica dos objetos garimpados. Elas funcionam como elementos adicionados à obra para trazer uma nova camada de informação. Não têm a função de limitar a pintura nem de servir apenas como um adorno. Pelo contrário, evocam uma prática da história da arte e funcionam como objetos de memória.

Por isso, a pintura não precisa caber dentro do espaço sugerido pela moldura. Ela avança até onde pretende ir.

Maria Fernanda Lucena nasceu no Rio de Janeiro em 1968, onde vive e trabalha. Formada em indumentária e design de moda, em 1998 Maria Fernanda ingressa na EAV – Parque Lage, onde frequenta diversos cursos e passa a se dedicar ao desenho e à pintura.

Vencedora do Prêmio Ibeu 2016, a artista participa de exposições desde 2012. Destacam-se as individuais realizadas na Galeria de Arte Ibeu, Museu de Arte do Rio, Paço Imperial e Casa França- Brasil, Rio de Janeiro.

Seu trabalho integra os acervos do Mar – Museu de Arte do Rio, do Centro Cultural Ibeu e diversas coleções particulares.

ABERTURA

13 de agosto, às 19h

EM EXPOSIÇÃO

até 14 de setembro

Rua Dr. Chrysippo de Aguiar, 8

Corredor da Vitória, Salvador, Bahia • CEP 40081-310

Coordenação:

Paulo Darzé e Thais Darzé

Curadoria e texto Bruna Araújo:

Produção executiva: Aline Camargo Dulcidalva Goes Patrícia Nunes

Entrevista e consultoria: Claudius Portugal

Fotografia: Piti Tomé

Montagem: Alex Sandro Almeida Oliveira Antonio Jorge Reis dos Santos Jr. Jenivaldo Jesus dos Santos
——————————————————-
Claiudius Portugal é poeta, escritor, dramaturgo e editor