Por Eliecim Fidelis
Na era das fake news e deepfakes ou, para os menos letrados no jargão midiático, das informações falsas e da geração artificial de áudios e vídeos com a inserção de imagens e vozes manipuladas pela IA, não foi surpresa o resultado do estudo publicado pela Agência Lupa, apontando que mais de noventa por cento das informações analisadas referentes aos últimos oito anos eram falsas.
O período eleitoral tende a funcionar como um acelerador das notícias propositalmente falsas ou enviesadas. Devemos ainda nos preparar para situações inusitadas em que qualquer frase, ato ou atitude pode sofrer várias interpretações, em função do prisma ideológico de quem os lê ou assiste. É o caso do fato abaixo narrado, que poderia ser corriqueiro se não fosse o momento eleitoral, e do qual podemos dizer que nem toda semelhança é mera coincidência, mas também pode ser.
Na fila do caixa da farmácia “Pegue três, pague dois”, havia pessoas inquietas, outras passivas, mas ninguém indiferente às frases soltas, mas que podiam ter uma ligação intrínseca. Uma senhora de meia idade, cujos vaivéns denunciavam sua inquietude, parecia ávida por conversar ou, quem sabe, ir além da simples prosa. Não escolhia a quem dirigir a frase e o olhar. A frase era: “um dia eles me pagam”. O olhar era travado pelas sobrancelhas franzidas e dirigido ao receptor mais próximo.
À sua frente, um senhor sisudo e forte entregou a cestinha com os medicamentos, pagou e saiu. Atrás, a fila aumentava. Chegou a vez da dita mulher de meia idade. A moça do caixa perguntou: “A senhora gostaria do CPF na nota?” Ela arrodeou o olhar, e disse: “Eu? Se nem o filho do homem informa CPF, por que eu vou informar?”. Quitou suas compras, mas, antes de pegar a cestinha, afastou-se da fila e se dirigiu a um senhor alto que chegava ao caixa, e disse: “E o senhor topa comprar um apartamento para minha filha, para eu lhe pagar depois?”. Sem resposta, ela lançou as vistas em direção a uma mocinha magra, de óculos escuros, que estava mais distante da fila e, quase gritando, disse: “E a menininha aí, gostaria de ganhar um apartamento do papai?”.
A mocinha nem sequer suspendeu as vistas: “Senhora, meu pai não teve dinheiro nem pra pagar a filmagem do clipe que a família queria botar na internet pra arranjar dinheiro pra curar minha doença rara. E agora, na condição em que ele se encontra, não pode mais trabalhar pra arranjar o valor. É uma pena que não posso ver o rosto da senhora. Só estou aqui agora graças ao Zeca” — segurou mais firme o ombro do rapaz que a acompanhava.
Ouvem-se gritos: “Senhora! Senhora!”. Entre olhares suspeitos, a reclamona se foi de mansinho sem levar a sacola esquecida com os medicamentos na bancada do caixa.
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Psicanalista e escritor, membro do Espaço Moebius Psicanálise – fidelis.eli@gmail.com
