Entre o “LuNeto” e o “Anti-Lula”

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Por Victor Pinto

O chamado voto “LuNeto” começa a ocupar um espaço inquietante na eleição baiana. Não porque ACM Neto tenha se tornado lulista (não se tornou mesmo e nem perfil para isso tem) e nem porque Lula tenha qualquer proximidade eleitoral com o ex-prefeito de Salvador. O fenômeno é outro: uma parcela do eleitorado pode fazer o voto descasado para a escolha para presidente daquela feita para governador, algo que foi fundamental nas últimas eleições na Bahia, principalmente a de 2022.

O Estado de Minas Gerais conhece bem esse comportamento. Em 2002 e, sobretudo, em 2006, ganhou força o “Lulécio”, voto simultâneo em Lula e Aécio Neves, apesar de PT e PSDB ocuparem campos nacionais opostos. Em 2010, apareceu o “Dilmasia”, reunindo Dilma Rousseff e Antonio Anastasia. O eleitor mineiro mostrou que eleições simultâneas não significam necessariamente votos ideologicamente alinhados. É justamente esse risco que começa a aparecer na Bahia e deve acender o sinal de alerta dos governistas, principalmente agora com o horário eleitoral no rádio e na tv que começa essa semana.

ACM Neto sabe que confrontar Lula é eleitoralmente custoso. Sua estratégia tem sido manter o apoio a Ronaldo Caiado na disputa presidencial, mas evitar transformar a eleição baiana numa extensão automática da disputa nacional. Quando provocado sobre o “Lula-Neto”, responde que o eleitor é livre para escolher. Na sabatina comigo e com Guilherme Reis, editor da Tribuna, na Band, reafirmou o apoio a Caiado, mas rejeitou qualquer espécie de “patrulhamento” sobre quem queira votar em Lula e nele simultaneamente. Claro, para ele isso é lucro. Quase 30% de quem votou nele em 22, votou em Lula. 

É uma neutralidade cuidadosamente construída no discurso, ainda que não exista neutralidade formal. Aleluia retirou a candidatura ao governo para o partido Novo apoiar Neto, logo, tem o palanque de Romeu Zema. Também possui João Roma em sua chapa frontalmente ligado a Flávio Bolsonaro.

Creio que Jerônimo Rodrigues entendeu o perigo. Por isso, passou a insistir que Neto é “anti-Lula”, além de bolsonarista. A intenção é simples: impedir que o eleitor trate as duas urnas como compartimentos independentes. Jerônimo precisa transformar o voto em Lula numa espécie de voto de confiança também no projeto estadual do PT, como ocorreu nas anteriores. Chegou a classificar como mentira a ideia da “casadinha” Lula-Neto.

A batalha chegou à Justiça Eleitoral. A federação liderada pelo PT conseguiu retirar uma montagem que criava falsa aparência de aliança entre Lula e a oposição, mas também houve decisão negando pedido para remover vídeo de influenciadores que simplesmente declaravam voto simultâneo nos dois candidatos. Ou seja: há uma diferença jurídica importante entre fabricar uma aliança inexistente e manifestar uma preferência eleitoral cruzada. Politicamente, essa distinção é fundamental.

A questão central da campanha pode, portanto, mudar. Jerônimo não precisa apenas convencer o baiano a votar em Lula. Precisa convencê-lo de que votar em Lula e em outro governador seria uma contradição. Neto, ao contrário, precisa justamente normalizar essa separação.

É aí que mora o perigo para o PT: Lula continuar fortíssimo na Bahia e, ainda assim, não carregar automaticamente Jerônimo na mesma proporção como foi na eleição passada.

Esse talvez seja o ponto mais interessante do “LuNeto”. A disputa deixou de ser apenas por quem terá o apoio de Lula e passou a ser por quem terá direito aos votos dos lulistas. E são dois cenários bastante diferentes. A conferir.