Historiando as Copas II – Bastidores dos Mundiais de Futebol

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Por Zédejesusbarreto

Capítulo 2 – A hora da Celeste Olímpica  

 A Europa não tinha se recuperado da desgraceira humana, social, econômica da Primeira Grande Guerra (2014/18), uma carnificina de combates em trincheiras. E vivia os horrores dos fantasmas totalitários: – O stalinismo na Rússia, o fascismo mussoliniano na Itália, o franquismo na Espanha, Salazar em Portugal e, o mais aterrorizante de todos, o nazismo de Hitler, na Alemanha, pregando a supremacia racial ariana.  Do outro lado do atlântico, a crise financeira sem precedentes dos EUA, com o estouro da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

  Nesse contexto mundial, sob os caprichos do francês Jules Rimet, então comandando a FIFA, aconteceu a Primeira Copa do Mundo de Futebol, em 1930, no ‘fim do mundo’, o Uruguai, sul das Américas, muito distante dos conflitos.

  A lonjura do palco foi o primeiro motivo da escolha. O Uruguai vivia um momento de tranquilidade e progresso, comemorava o centenário de emancipação política, não sofria as sequelas dos conflitos no hemisfério norte, era seguro. O outro motivo da escolha era puramente justificável como ‘esportivo’. O Uruguai acabara de surpreender os europeus vencendo duas olimpíadas, ganhou as Medalhas de Ouro no futebol em 2024 e 2028, com sua camisa azul celestial, a ‘celeste olímpica’.

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  Mordomias e maresias

  No mais, os uruguaios prometeram bancar as despesas das seleções europeias que confirmassem presença. Apesar das mordomias oferecidas, apenas quatro compareceram – França, Iuguslávia, Romênia e Bélgica. Dessas, só a Iugoslávia mandou sua equipe principal, os outros países mandaram uns catadinhos possíveis.

  A viagem era longa, 40 dias de navio singrando águas atlânticas, de norte a sul e mais 40 dias de retorno sul a norte. As equipes europeias chegavam ao porto, em Montevidéu, no bagaço, os atletas mareados, mais de mês sem treinamentos adequados, no come e dorme do balanço do mar.

  Dos sul-americanos, marcaram presença a Argentina, então maior rival dos uruguaios, o Brasil com seu arrumadinho carioca mambembe, mais o México, o Chile, Bolívia, Peru, Paraguai e os Estados Unidos.  Catorze equipes/seleções disputaram, portanto, a primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai.

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 O bairrismo Rio/SP

  Os clubes e a Federação Paulista (à época era a Associação Paulista de Esportes Atléticos), em birra com a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), que era comandada pelos cariocas, não cederam seus atletas, puro bairrismo.

 Assim, ficaram de fora da Copa, entre outros bons jogadores paulistanos, o melhor de todos, o Pelé da época, o mulato Friedenreich (que alisava os cabelos para ser aceito no chamado ‘esporte bretão’), artilheiro dos bons – teria feito mais de mil gols na carreira, mas quem prova, cadê o VAR?  O único paulista na equipe brasileira foi Araken Patuska, que estava sem vínculo com clubes, naquele instante.

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 Os donos da casa venceram

  Deu a Celeste Olímpica, em campo, primeira Campeã do Mundo, única com esse título, orgulho nacional. Os uruguaios, em casa, treinados, entrosados, descansados, conhecedores dos gramados, do clima, das regras vigentes, das arbitragens e das mumunhas do jogo sobraram em campo, fizeram uma campanha irretocável. 

  Venceram o Peru (1 x 0), golearam a Romênia (4 x 0), a Iugoslávia (6 x 1), numa exibição de gala; esse jogo acabou aos 42 minutos do segundo tempo, porque o campo foi invadido pela torcida uruguaia, comemorando o triunfo com os atletas.  Na final, o Uruguai venceu a Argentina, de virada, por 4 x 2, o mesmo confronto da final das Olimpíadas de 1928, na Europa, vencida também pela Celeste Olímpica.   

   Essa final foi marcada por muita cangancha, também fora de campo, os ‘cartolas’ dos dois países vizinhos quase aos tapas. Tudo por conta das bolas do jogo. A FIFA interferiu ‘salomonicamente’: – O primeiro tempo foi disputado com a pelota fabricada em Buenos Aires e terminou com a Argentina vencendo por 2 x 1. Na segunda etapa, com bola uruguaia, os donos da casa, empurrado por 90 mil enlouquecidos torcedores,  fizeram três gols, viraram o jogo e tornaram-se campeões do mundo, primeiros e únicos.

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– O Brasil não passou da primeira fase, derrotado na estreia pela Iugoslávia (2 x 1). Q quase leva um ‘W0’, pois a delegação brasileira chegou ao estádio com mais de uma hora de atraso. Perdemos a hora e o jogo. No segundo confronto, a seleção brasileira venceu a fraca Bolívia por 4 x 0. Mas a Iugoslávia classificou-se no Grupo B, que só tinha três times: Iugoslávia, Brasil e Bolívia.

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  A bagunça geral

 As obras de construção do Estádio Centenário, em Montevidéu, o maior da Copa, também atrasaram, e no jogo de abertura – Uruguai 1 x 0 Peru – parte do público acomodou-se sentada em tábuas postadas, apoiadas sobre pilhas de tijolos.

  Estávamos ainda bem distantes do profissionalismo, era uma desorganização, tudo resolvido no improviso.

    Para se ter uma ideia, os jogos nunca começavam nos horários marcados e previstos, e os gramados foram invadidos por torcedores em diversas ocasiões. O relvado, um horror, desnivelado. Era comum que os jogadores, ainda sem números nas camisetas, abandonassem o campo de jogo por uns instantes para tomar água, buscar fôlego, descansar um pouco e reentrar ao gramado sem que os árbitros tomassem conhecimento. Bons tempos!

– No primeiro mundial foram marcados 70 gols, em 18 partidas. Uma média de público de quase 25 mil torcedores/jogo.

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 Mais curiosidades:

– O jogo França 4 x 1 México, na fase classificatória, Grupo 1, o brasileiro que apitava encerrou a partida aos 84 minutos, com o campo de jogo invadido pela delegação francesa e torcedores. Pressionado, voltou atrás e deu mais os seis minutos de jogo restantes.

– A partida Argentina 6 x 1 EUA, já pelas semifinais, ficou marcada pela goleada e a violência dos ‘hermanos’, que intimidaram os gringos do norte, no pau. O goleiro norte-americano Douglas teve de deixar o gramado com a cabeça quebrada por um atacante argentino.

– O defensor peruano De Las Casas, um becão vigoroso, foi o primeiro jogador expulso em Copas, no jogo Romênia 3 x 1 Peru, pela fase classificatória, Grupo 3. Meteu a mão no árbitro chileno Alberto Warken.

– O craque, melhor jogador da Copa foi um preto, o uruguaio José Leandro Andrade, apelidado de “Maravilha Negra”, que foi ídolo nas cinco equipes de seu país, onde jogou.

– O artilheiro da primeira Copa do Mundo foi o argentino Guillermo Stábile, com 8 gols. Ele começou a competição na reserva de Roberto Cherro, que se machucou e cedeu o lugar ao sortudo goleador. Stábile começou no Huracán, mas consagrou-se como artilheiro e ídolo com a camisa do Boca Juniors.

– O atacante uruguaio Castro, que marcou duas vezes no mundial, tinha o apelido de ‘Manco’, porque não tinha uma das mãos. Ele procurava esconder a deficiência dos fotógrafos.

– O histórico time uruguaio, campeão: Bellestrelo, Nasazzi e Mascheroni; Andrade, Fernandez e Gestido; Dorado, Scarone, Castro, Cea e Iriarte.

 Jogava-se num sistema 2-3-5. O técnico foi Alberto Suppicci. Marcaram, na final: Dorado, Cea, Iriarte e Castro.

– O troféu, a taça entregue aos campeões se chamava “Deusa Dourada”. Só na Copa de 1950, no Brasil, ganhou o nome de Taça Jules Rimet.    

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Nota: Tem muito mais.

           “Historiando as Copas’, de zedejesusbarreto, lançado em 2023 pela OjuOBá Editora, à venda pela Amazon – uma resenha contextualizada de todas as 22 edições da Copa do Mundo, da primeira (no Uruguai, em 1930) à derradeira, em 2022, a Copa de Messi no Catar/Mundo Árabe. Recomendamos. É uma obra indispensável aos que gostam e lidam com o futebol.
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Escritor, pesquisador e jornalista

Ilustração gerada por IA