Por Victor Pinto
Caminhar pelas ruas de Salvador ou circular pelas praças do interior da Bahia nesta temporada eleitoral carrega uma sensação de desaceleração. De quem passa ou de quem conversa com quem passa, um calor popular mobilizador não tem agregado valor em 2026. Tudo bem, estamos nas primeiras semanas de campanha, mas será que depois embala? A queixa é idêntica nos dois lados da trincheira: tanto o comando da base governista quanto a cúpula da oposição enfrentam uma dificuldade crônica para colocar o povo na rua de forma espontânea.
Como singelo observador dos rituais sociais e das engrenagens políticas, percebo que essa apatia, na minha opinião, não ocorre por acaso. Esse silêncio coletivo emite sinais profundos sobre o atual estado de espírito do eleitorado. Há três hipóteses centrais que considero como motivadores dessa “eleição fria” que conversa diretamente entre si.
A primeira causa é o visível esgotamento físico e mental. Tivemos uma pré-campanha tão antecipada, ostensiva e inflacionada por eventos institucionais que a população parece ter chegado ao período oficial da disputa sem qualquer fôlego. O cidadão mais politizado ou da engrenagem do poder foi bombardeado por articulações de bastidor, pesquisas e trocas de partido muito antes da hora.
A segunda causa hipoteticamente possível é a desilusão com o cenário posto nas urnas. Ao olhar para as opções e perceber a repetição das velhas polarizações locais, o eleitor sente uma incômoda distância entre o teatro político e suas urgências diárias como o fantasma da violência que assusta as periferias até a estagnação da renda familiar.
O terceiro e mais simplório é de que o povo não acordou ainda para a eleição e o tema só está, ainda, na bolha. Ainda vai chegar nas massas nos 20 últimos dias do pleito do primeiro turno.
O resultado prático é que as poucas mobilizações mais vistosas vistas hoje em carreatas e comícios são nutridas, quase em sua totalidade, pelo público engajado por dever de ofício. São os servidores de um lado ou de outro, a militância comissionada e a máquina partidária em funcionamento puramente mecânico. O grupo da opinião pública ampla, aquele eleitor sem contracheque ou vínculo direto com o poder público, permanece quieta e distante.
Creio que esse esfriamento não significa que o baiano deixou de se importar com o destino da Bahia. Significa apenas que ele cansou de gastar sola de sapato por discursos decorados ou tentativa de emplacar lógicas imutáveis como receita de bolo. Quem não conseguir traduzir a mensagem desse silêncio a tempo corre o risco de descobrir, no dia da votação, que a maior força destas eleições será a da pura e simples indiferença. É o que parece. A conferir.
