Julgar Teodósio de Farias em 2026 é desconsiderar a história

No momento você está vendo Julgar Teodósio de Farias em 2026 é desconsiderar a história

Por Marcelo Sacramento de Araújo

Julgar homens do século XVIII com a régua moral de 2026 não é fazer justiça. Atacar a memória de Teodósio de Farias fundador da Devoção do Senhor do Bonfim não é revisão histórica. É distorção histórica.

Teodósio de Farias foi capitão de mar e guerra português. Em meio a uma violenta tempestade, sob ameaça real de naufrágio e morte, fez um voto de fé ao Senhor do Bonfim de Setúbal: se sobrevivesse, traria a imagem para a Bahia. Salvou-se. E cumpriu. Em 1745, chegou a Salvador trazendo a imagem que se tornaria um dos maiores símbolos de fé do Brasil.

No mesmo ano, fundou a Irmandade do Senhor do Bonfim. Comprou o terreno. Liderou a construção da igreja. Em 1754, o templo estava concluído internamente e, em procissão solene, a imagem foi conduzida até a igreja erguida por ele e por outros devotos. Teodósio foi o primeiro presidente da Irmandade, deixou como legado a missão de perpetuar a fé e faleceu em 1757, sendo sepultado na própria igreja. Um homem de fé comprovada por atos, não por discursos.

Há, porém, outro fato histórico, documentado, que os atuais julgadores podem não sabem ou não querem enaltecer. Teodósio possuía um sócio, que veio a falecer. Tempos depois, ao auferir resultados de cargas e negócios, há registros históricos de que pagou integralmente ao espólio do sócio falecido a parte que lhe cabia. Não havia obrigação social, pressão pública ou tribunal que o compelisse. Havia apenas palavra, caráter e honra, valores reconhecidos à época como fundamentos da reputação de um homem.

Esses gestos revelam quem ele foi: um homem honesto, de palavra, de dignidade e de fé. Valores que não pertencem a um século específico. Valores que não envelhecem. Valores que estão acima do tempo.

Duzentos e oitenta anos depois, durante a Lavagem do Bonfim de 2026, surgem cards e vídeos tentando reduzir essa trajetória a um rótulo simplista, um carimbo único. Sem contexto, sem método, sem compromisso com a verdade histórica.

Isso não é história. A historiografia séria é clara: o passado não pode ser analisado à luz exclusiva do presente. As estruturas econômicas, jurídicas e sociais do século XVIII eram radicalmente diferentes das atuais. O mundo atlântico daquele período funcionava sob sistemas imperiais, mercantis e coloniais, nos quais práticas hoje reconhecidas como abomináveis eram institucionalizadas e normalizadas — não por virtude, mas por estrutura histórica.

Julgar personagens históricos ignorando esse contexto não é justiça retroativa. É deslealdade intelectual.

Fé, honestidade, caráter e dignidade não são circunstanciais. Não são temporais. São atributos universais do ser humano. E esses, sim, estão plenamente demonstrados na trajetória de Teodósio de Farias. Atacá-lo agora é fácil. Ele não pode responder. Não pode se defender. Não pode contextualizar sua própria vida. Mais grave ainda é tentar ferir a própria Devoção do Senhor do Bonfim usando a memória de seu fundador como instrumento de militância. A fé do povo baiano atravessou séculos porque se sustenta em valores sólidos, não em julgamentos pontuais. Respeitar a história não é endossar todas as práticas de um tempo. É compreender o tempo. Isso exige coragem intelectual.

Julgar Teodósio de Farias em 2026 não revela justiça.
——————————————————————————————————————————————————————————–Marcelo Sacramento de Araújo é Advogado, Empresário, Juiz-Presidente da Devoção do Senhor do Bonfim da Bahia e Cônsul Honorário do Benin na Bahia.