Por Marcelo Albert de Souza
Sempre adorei dar trotes telefônicos. O ‘Espírito Mução’ me acompanha desde cedo, bem antes de eu conhecer seu impagável programa e virar seu fã incondicional.
Outrora era uma prática muito mais fácil de se realizar, uma vez que os telefones não possuíam identificador de chamadas. Obviamente, estou me referindo a telefones fixos. Sim, existia algo chamado bina – que, aliás, foi inventado por um brasileiro -, mas vamos lá, era muito raro alguém possuir esse troço em casa.
Eu e meu melhor amigo de infância/adolescência no Rio de Janeiro (outro sacana incorrigível) trocávamos informações sobre nossos trotes e meio que disputávamos quem fazia os melhores. Diferentemente da falsa disputa amigável por titularidades nas posições dentro de um time de futebol, a nossa era realmente saudável, já que a risada sobre o feito do ‘oponente’ era mais do que garantida.
Um belo dia, ele resolve inventar uma engenhoca no som da sua casa ligada ao seu telefone ‘de gancho’ que permitia que ouvíssemos o que a vítima falava e que também pudéssemos falar diretamente com ela através da caixa de som. Uma coisa genial.
Criamos vários roteiros (escritos em folhas de papel deixados no chão) de argumentos para serem usados e revezávamos nas falas. Sacamos nossas pequenas agendas físicas (eu salvava os números à lápis) e começamos a perturbação.
Gravamos uma fita cassete só disso. Apresentamos nosso ‘material’ aos nossos parentes/amigos muito próximos e rimos muito, dezenas de vezes.
Infelizmente, o panaca que escreve essas palavras conseguiu perder essa fita. Na verdade, ela estava dentro de uma bolsa esportiva que foi furtada de mim depois de um jogo de futebol de salão.
Esse evento me dói até hoje, acredite.
Muito tempo depois (bota muito nisso), já em Salvador, tendo um monte de CD’s piratas do Mução, morando na Federação e trabalhando no Comércio, me vejo no seguinte contexto: em frente ao meu prédio tinha uma locadora de vídeos. André, seu proprietário (com certeza personagem principal de um novo escrito), era meu parceiro predileto de cervejada no bairro. Eu adorava beber e bater papo com ele, figura realmente especial. Como ele era dono, chegava/saía na hora que desse na telha.
Quem abria/fechava a loja era, invariavelmente, a sua companheira, Dora. Se você agora está fazendo trocadilho com locadora e Dora, imagina o que ela teve que aturar durante vários anos. De mim, inclusive, claro.
Apresentados André e Dora, agora passo ao personagem principal.
João era porteiro pela parte da manhã em um prédio que ficava à direita do meu. Portanto, bem em frente à locadora também. Ele terminava o seu plantão no prédio e ia direto para a locadora para ser uma espécie de segurança da Dora até o horário do seu fechamento (19:00). Não era funcionário, não falava da disponibilidade de vídeos, não recebia dinheiro no caixa, não indicava filmes, apenas estava sempre ali.
Branquelo, aqui no Nordeste conhecido como gazo, 1,60 m de altura, no máximo, extremamente humilde, gentil e cortês. Outra pessoa que guardo no meu coração até hoje.
Você acha que me distraí e esqueci do contexto lá em cima, né? Esqueci, nada. Quando eu realmente começar a contar o que aconteceu, você entenderá a contextualização, ora.
Esse tal dia era uma sexta-feira, eu tinha retirado uma quantia razoável no caixa da empresa que eu trabalhava e iria pra casa de táxi. Era cedo, tipo 16:00, eu queria saber se o André já estava ‘na área’. O lugar que a gente bebia era muito perto tanto do meu prédio como da locadora.
Ninguém tinha celular. Ligo do telefone da minha sala para a locadora (fixo-fixo). Apenas queria perguntar para a Dora se o André estava de bobeira por lá. Quem atende é o João. O Diabo incorpora no advogado que não era do Diabo e muda sua voz:
_ Locadora, boa tarde.
_ Amigo, eu apenas rebobinei metade da fita. Quanto custa essa meio rebobinação?
_ Poxa, senhor, não sei dizer. Quer que eu pergunte para a dona?
_ Não, não precisa. Acho que consigo resolver isso até levar a fita para aí. Como o senhor se chama?
_ João.
_ Grandes coisas.
_ O que? O que o senhor disse? Eu estou sendo educado com o senhor e o senhor vem me falar isso?
_ Não, amigo, deve ser um mal entendido. Eu sou amigo do André. Ele está por aí?
_ Não, senhor. Ele está aqui no lado na loja do Johnny.
(Era a informação que eu queria. A ‘loja’ do Johnny era o bar).
_ Olha, amigo. Você me desculpe. Acho que errei seu nome, não queria fazer isso. Desculpa, José.
_ João……
_ Grandes coisas.
‘Ô, Dora! Tem uma pessoa aqui no telefone dizendo que é cliente que está me desrespeitando. Eu vou desligar na cara dele’. Ouvi ao fundo.
_ O senhor deseja mais alguma coisa? Eu vou desligar o telefone.
_ Amigo, me desculpe. Eu vou chegar aí na locadora em poucos minutos, acho que houve um mal entendido, eu não quis desrespeitar o senhor em momento algum. Eu sou amigo do André e da Dora. Rapaz, não me leve a mal.
_ Mas o senhor veio com essa conversa de ‘grandes coisas’ e eu não gostei……
_ Olha, eu já já chego por aí e conversamos direito. Espero que você se acalme, eu sou uma pessoa da paz, adoro fazer amigos. Não fique assim.
Até já, Joãozinho Grandes Coisas.
Desliguei. Chorando de rir, vou embora.
Quando desço do táxi, dou de cara com ele, conversando com o ‘segurança da rua’ que rondava todo o quarteirão, perto da porta da locadora. Algo me diz que estava com medo do doido do telefonema.
Eu com os olhos vermelhos e gargalhando, quase cambaleando, indo em sua direção. Ele me olha, petrifica. A ficha cai. Nos abraçamos.
‘Foi o senhor???!!! Meu Deus do céu!!!’
Adorável Joãozinho Grandes Coisas.
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Escritor, advogado e DJ
