Por Victor Pinto
Numa conversa de fim de semana, um amigo, também apaixonado por política, me fez uma pergunta simples e vale a reflexão: o que deve estar passando na cabeça de Jerônimo Rodrigues diante dessa pressão eleitoral e o by pass dos seus “padrinhos”? A pergunta ficou ecoando. Porque a situação dele não é trivial.
Jerônimo assumiu o governo carregando bombas que não foram montadas por ele. Projetos estruturantes por fazer. Complicações em contratações de licitação. Convênios astronômicos para serem quitados. Herdou desgaste acumulado de gestões anteriores, problemas dorsais que atravessam governos e um cansaço natural de ciclo petista após Wagner e Rui. Governar já seria difícil. Governar sob comparação permanente é ainda mais.
Diferente de Rui Costa, que foi preparado com antecedência para substituir Jaques Wagner, Jerônimo foi escolhido nos 45 do segundo tempo. A vontade era outra candidatura na disputa para, na época, um arranjo pessoal do incumbente do Palácio ser colocado em prática. Foi uma construção rápida, fruto de circunstância política, não de uma transição planejada por anos. E, ainda assim, venceu. Isso por si só já diz muito sobre sua capacidade de articulação e leitura do interior, sobre quem dominava setores regionais e programa de governo participativo.
Mas o teste maior veio depois. As comparações. Tentar imprimir um ritmo próprio e a busca de uma marca. Agora, em 26, na corrida do arranjo de fazer política e montar a chapa, Jerônimo viu seu antecessor articular movimentos que poderiam, em tese, contorná-lo e reposicionar o tabuleiro. A possibilidade de um “retorno” ao protagonismo não era apenas especulação de bastidor. Era risco real articulado via Brasilia. Se tivesse prosperado, seria uma desmoralização pública.
Em meio a isso, o governador reagiu. Repreendeu secretários que falavam demais sobre sucessão, formação de chapa e deixou claro que a liderança do processo é dele. O recado foi direto: quem governa é ele. Foi um gesto necessário para reafirmar autoridade palaciana.
Mesmo assim, episódios recentes alimentam novo ruído. Quando Jaques Wagner crava publicamente a composição da chapa durante entrevista recente a rádio Caraíba de Irecê, perguntas inevitáveis surgem: quem está conduzindo o processo? Jerônimo mantém silêncio estratégico ou cede espaço excessivo? Jaques Wagner bateu na mesa de novo diante das indiferenças com Rui para marcar o território? Sobre Jerônimo, gratidão a Wagner e Rui é compreensível. Ambos foram decisivos na sua eleição. Mas gratidão não pode virar sombra permanente.
Jerônimo tende ser mais agregador e é mais simpático do que seus antecessores. Construiu relação orgânica com prefeitos e movimentos sociais. Lembra de nomes e personas por onde passa. Vai ao interior do interior para fazer gestos, locais onde nunca se pensou que um governador poderia passar. Essa é uma força que não pode ser subestimada. O problema: simpatia não substitui liderança afirmada.
Hoje, o que está em jogo não é apenas a montagem da chapa. É a percepção pública de comando. A oposição tenta explorar qualquer fissura. A base observa cada gesto.
Jerônimo não é Wagner. Não é Rui. E não precisa ser. Mas precisa demonstrar, de forma inequívoca, que o governo tem centro de gravidade próprio. A política baiana sempre foi marcada por lideranças fortes. A pergunta que fica é se Jerônimo vai consolidar a sua ou ceder permissão para a história o colocar como fio de transição.
Talvez o que passe na cabeça dele seja justamente isso: como equilibrar gratidão, autonomia e autoridade sem romper pontes. Porque, no fim, 2026 também passa por um teste de liderança, além do inquilinato do Palácio de Ondina. A conferir.
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