Por Victor Pinto
A campanha de 2026 começou oficialmente com uma disputa no embalo das músicas. Por cá na Bahia, ACM Neto e Jerônimo Rodrigues abriram a corrida tentando impor, por meio dos jingles, duas versões diferentes sobre o Estado, sobre o adversário e, principalmente, sobre o sentimento que desejam despertar no eleitor baiano. Trata-se, na minha singela análise, da propaganda eleitoral em sua forma mais clássica: simplificar uma eleição complexa para conexão com as massas, principalmente.
ACM Neto chega com um repertório em várias frentes. “Dalê”, com O Poeta e Ruivinha, apostou no pagode e na mobilização, também tem o “Sorria Bahia” que busca vender esperança e, mais de maneira mais recente, uma adaptação de “Tudo Azul”, na voz de Mainha do Brega, que avançou para uma construção mais claramente política. O jingle parte de uma Bahia marcada por problemas e tenta desembocar na ideia de mudança, associando o candidato da oposição a uma espécie de reencontro com tempos melhores.
ACM Neto precisa convencer o eleitor de duas facetas ao mesmo tempo: que a Bahia vive um ciclo esgotado e que ele representa uma mudança segura. Seus jingle, portanto, além de jogar para galera, ser festivo, precisa carregar crítica.
Jerônimo faz operação diferente com “Jero tem o molho”, interpretado por O Kannalha, a novidade do início da campanha no fim de semana. O governador não tenta abrir a campanha explicando quatro anos de gestão, pois procura reconstruir a proximidade. “Jerônimo” vira “Jero”, o governador entra no pagodão e a comunicação tenta colocá-lo dentro de um ambiente cultural reconhecível, sobretudo em Salvador e na Região Metropolitana. A presença de Lula e do número fecha a equação, na minha opinião, com três pilares que são personalidade, identidade partidária e voto casado (a questão do Senado vai precisar disso).
A comparação com 2022 ajuda a entender o movimento. Naquela eleição, Jerônimo era um candidato praticamente desconhecido. Sua propaganda precisava apresentá-lo e, ao mesmo tempo, colá-lo a Lula e ao legado petista. Surgiram jingles como “Samba do Jero”, “Pegou Pressão” e “Vai dar PT de novo”. A música cumpriu papel quase pedagógico para ensinar nome, número, lado político e também o pertencimento.
ACM Neto, por sua vez, tinha uma vantagem que hoje não possui: carregava forte recall e liderou boa parte das pesquisas. Em 2022, peças como “Eu tô com Neto”, o piseiro do 44 e até a recuperação simbólica de “ACM, meu amor” exploravam mais identificação pessoal e memória política do que confronto direto com o governo e agora o jogo é totalmente diferente.
Em 2026, os papéis se alteram. Jerônimo agora precisa defender o poder. Neto precisa romper uma sequência de cinco vitórias petistas para o governo da Bahia. Por isso, a guerra dos jingles ficou mais sofisticada na estratégia, mesmo que uns ou outros torça o nariz para o estilo adotado. Neto tenta transformar insatisfação em desejo de mudança e Jerônimo tenta converter pertencimento político em proteção ao mandato. Um trabalha a ideia de que a Bahia precisa virar a página e o outro de que não vale abandonar um campo político que ainda conserva força eleitoral.
O ponto decisivo será descobrir qual música sobreviverá à campanha e vai ganhar os paredões e grudar como chiclete, como foi o Samba do Jero de 22 (Jerônimo e Geraldinho ou Geraldo e Geraldinho ou Jerônimo e Jerominho, das tantas versões populares kkkkk).
Um jingle forte marca, como já escrevi algumas vezes aqui nesta coluna, ajuda a organizar sentimento. Na passada, Jerônimo precisou cantar para ser conhecido. Em 2026, terá de cantar para justificar a continuidade. Neto, que antes cantava favoritismo, agora precisa fazer o eleitor cantar a mudança. Vai ser uma cantoria que só. A conferir.
——————————————————-
Jornalista // twitter: @victordojornal
