Por Antônio Lins
O candidato sobe ao palanque,
punho fechado, sorriso de ocasião;
promete pão, justiça e liberdade,
mas já calcula o preço da eleição.
O povo, debaixo do sol, espera,
com o título apertado entre os dedos;
há fome nas panelas, nos barracos,
há medo escondido atrás dos medos.
Do alto, distribuem palavras doces,
como quem joga milho aos passarinhos;
embaixo, a multidão carrega o peso
de séculos marchando sem caminhos.
Prometem hospitais, escolas, trabalho,
prometem a cidade sem miséria;
depois fecham as portas dos palácios
e deixam o povo entregue à própria espera.
Não lhes entreguem a alma numa urna!
O voto não é cheque nem favor.
Quem vende a consciência por promessa
compra com seu silêncio a própria dor.
Mas quando a multidão compreender
que a força não pertence ao gabinete,
nenhum discurso poderá calar
a voz de quem trabalha e não se rende.
Então a praça há de falar mais alto,
e o medo há de mudar de endereço;
o povo não nasceu para servir —
nasceu para exigir o que é seu.
———————————————————
Poeta, escritor, dramaturgo e compositor

