Por Gilfrancisco

Com esse depoimento, seguro o porta-estandarte do livro em tela, que GILFRANCISCO, na paciência de pesquisador, o fez, catando pedaços de caco aqui e ali, para, depois, destacar alguma coisa ainda inédita, além de repassar opiniões e notícias da época do lançamento dos dois livros, pesquisa que carrega a magia de trazê-lo de volta as nossas estantes, nas vésperas da passagem dos trinta anos de sua morte, lastimando que Renato Mazze Lucas tenha partido tão cedo, sem nos ter brindado com outro anum, porque, além do anum branco e do anum preto, poderia surgir um novo, talvez cor de rosa, como, dizem, já ouvi, que Stanislaw Ponte Preta chegou a sugerir.
É ler agora o que GILFRANCISCO nos preparou.
Vladimir Souza Carvalho (2013)
Juiz Federal, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras.
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Poucos homens conseguem coordenar teoria e prática de maneira tão harmoniosa quanto Renato Mazze Lucas. Teoria e prática se fundem, vida e obra se fundem. Autor de dois únicos livros, Anum Branco (1961), publicado pela Editorial Vitória, órgão do comitê central do Partido Comunista do qual era filiado desde 1946 e Anum Preto (1967), publicado pela Editora Leitura, dirigida por José Barboza Mello, um dos membros da direção do Partido. Renato Mazze Lucas faleceu em 1985, há exatamente 41 anos.
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Nascido em Pojuca, cidade baiana pertencente à mesorregião metropolitana de Salvador, em 16 de abril de 1919, filho único do telegrafista Raimundo Lucas Leão e D. Petrina Mazze Lucas. Seus avós eram italianos, Caetano Lucas Leão, saiu direto da Itália para vir morar no Mangue Seco. Era um pequeno comerciante, que num certo dia, de uma hora para outra, viu seu patrimônio, inclusive um resto de dinheiro que trouxe da Itália, ser coberto pelas areias brancas das imensas dunas ali existentes. O seu avô materno, também italiano, morava nas redondezas, no povoado Terra Caída, às margens do rio Indiaroba, importante afluente do Piauitinga.
Por causa do pai Sr. Leão, chamavam Renato de Leãozinho. Aos dois anos de idade veio com os pais residir em Aracaju. Um seu tio Rafael Lucas, faroleiro da Atalaia fora depois transferido para Mangue Seco. Daí as viagens de Renato à Estância e a bela praia de Mangue Seco. Vem talvez dessa praia o seu grande amor pelo mar e pela gente do mar: pescadores e marinheiros.
Renato Lucas fez sua iniciação escolar no colégio Tobias Barreto, do famoso professor Zezinho Cardoso, tendo concluído o ginásio em 1934, mas não teve condições financeiras para continuar os estudos, e somente em 1937 prestou vestibular à Faculdade de Medicina da Bahia, matriculando-se no mesmo ano.

Faculdade de Medicina – Residindo em Salvador (BA) a partir de 1936, onde cursava o Pré-Médico, Renato Mazze Lucas morou na pensão de estudantes da velha Mariá, que ficava na Praça da Piedade, tendo como colega de pensionato o também jovem, Manoel Cabral Machado, estudante do curso Pré-Jurídico. Mais tarde, Renato passou a residir na pensão dos pais do amigo Walter Barbosa da Silva, num sobrado da Rua Carlos Gomes. O clima da pensão era de puro divertimento. Viviam os acadêmicos a promover “perfídias e trotes” uns com os outros e Renato Mazze foi uma dessas vítimas.
Sergipe Del Rey – Em Aracaju, a maior parte de sua vida estava junta às águas do rio Sergipe. Pescava, fazia canoas, comendo e acompanhado em roda de conversa com amigos. Alma aberta e compreensiva de boemia (era abstêmio) desprezava riqueza e honrarias. Preferia o convívio da gente simples.
Com o falecimento do pai, em julho de 1939, foi obrigado novamente a interromper os estudos, retomados, com dificuldades, em 1940, vai ser representante de laboratório, para ajudar financeiramente e consegue concluir o curso em 1943, na especialidade de Psiquiatria, quando interno do Hospital Juliano Moreira, de Salvador.
Formado, retornou para Sergipe, onde inicialmente foi exercer a profissão em Japaratuba e Aquidabã, não se adequando vai clinicar na próspera cidade de Itabaiana, onde permaneceu por uma década, residindo na Rua das Flores s/n e na Rua Barão do Rio Branco, 87. Além do consultório particular passou a atender também pela Previdência Social. Em Itabaiana foi logo estabelecendo relações com a intelectualidade local.
Partido Comunista – Fundado a 25 de março de 1922 por Astrojildo Pereira, os comunistas desde 1930 sempre se preocuparam em manter relações com a intelectualidade progressista. O papel central desempenhado pelos comunistas na luta contra o nazifascismo no Brasil e no mundo atraiu a simpatia de parcelas significativas da intelectualidade brasileira. O prestigio da URSS e de Luiz Carlos Prestes, o “cavaleiro da esperança”, estava no seu auge. Artistas e intelectuais acorrem em massa ao Partido Comunista que representava as aspirações mais avançadas da humanidade.
Mesmo durante o Estado Novo (1937-1945) os comunistas mantiveram sob sua direção algumas publicações importantes que dedicavam grande espaço ao problema da cultura nacional. A revista “Seiva” da Bahia foi uma das primeiras publicações de esquerda criadas após a repressão de 1937. “Seiva”, revista mensal de cultura (Mensagem aos Povos da América), fundada em dezembro de 1938, inda até 1943 em sua primeira fase, retornando em 1950, permanecendo até 1952. Esta publicação vai representar uma corajosa presença no cenário intelectual do país, pregando a liberdade e a democracia. Foi dirigida por João Falcão, Rui Faço, Jacob Gorender e outros. Vários intelectuais sergipanos membros do Partido, como José Sampaio, Enoch Santiago Filho Aluysio Mendonça Sampaio, Abelardo Romero, Joel Silveira, Jenner Augusto e Walter Sampaio colaboraram na revista.

Editoração
Na década de 1940, o Partido Comunista constituiu uma ampla rede de informação que abarcava oito diários nos principais estados brasileiros: Tribuna Popular do Distrito Federal; Hoje de São Paulo; O Momento da Bahia; Folha do Povo de Pernambuco; O Democrata do Ceará; Tribuna Gaúcha do Rio Grande do Sul; O Estado de Goiás e Folha Capixaba do Espírito Santo.
A direção nacional do Partido colocou ainda em circulação várias revistas: Problemas (1947) principal órgão teórico do Partido, era dirigida por Diógenes Arruda; Fundamentos (SP) revista de cultura moderna dirigida por Vilanova Artigas, tendo como redator o poeta Afonso Schmidt; Momento Feminino; Terra Livre; Emancipação; Divulgação Marxista; Revista do Povo; Horizonte; Paratodos; Literatura (1947) dirigida por Astrojildo Pereira. Entre 1944 e 1947 os comunistas retornaram uma atividade editorial intensa e sistemática. Leôncio Basbaum foi encarregado de organizar uma editora partidária em moldes empresariais. Assim nasceu o Editorial Vitória, que seria a editora mais importante dos comunistas brasileiros nos anos de 1940 a 1950.
A Literatura Realista – Com ideias socialistas desde a época de estudante, em 1946, com a redemocratização do Brasil e a legalidade do Partido Comunista, Renato filiou-se ao partidão e concorreu a uma cadeira no Legislativo, obtendo noventa votos.[1] Daí ter sido preso em setembro e outubro de 1952 no 28º B C, por atividades subversivas quando da reação anticomunista do Governo do Presidente Getúlio Vargas. Na chefatura de Polícia, com Osório Ramos, José Rosa, Otávio Dantas, Roberto Garcia e outros permaneceram presos por vários meses, inclusive na Penitenciária do Estado. Foi justamente neste período em que Renato leu muito e escrevia os primeiros contos, vindo a publicá-los depois na imprensa local.
Retornando ao ano de 1946, em decorrência de sua atuação profissional na cidade de Carira (SE), onde às segundas-feiras (a cada 15 dias), mantinha aberto um consultório para atendimento à população, que ele teve a oportunidade de conhecer a jovem Helena Rabelo, sua futura esposa e mãe dos seus filhos. Helena pertencia a uma família de políticos partidários da UDN (União Democrática Nacional), e o conheceu quando tinha apenas 19 e ele 27 anos de idade. Natural de Paripiranga (BA), aos três anos de idade mudou-se com a família para Carira. Apesar de estudar em Aracaju, foi em uma de suas férias escolares a este município, quando ajudava seu irmão no cartório, que conheceu Renato. Casaram-se tempos depois e foram residir na cidade de Itabaiana.

Repressão – Em maio de 1947, o poder judiciário cancelou o seu registro, passando o Partido Comunista à ilegalidade, e no início de 1948 o legislativo considerou extintos os mandatos dos representantes eleitos. Várias manifestações de protestos ocorrem em todo o país. Em Sergipe, foi marcado um grande ato de protesto em 30 de novembro, tendo sido proibido pelo Governador do Estado, José Rollemberg Leite (1947-1951). Mesmo assim, os comunistas resolveram realizar o protesto, em frente ao antigo cinema Rio Branco.
A polícia, comandada pelo capitão de Exército Djenal Tavares de Queiroz, investe contra os manifestantes assassinando a tiros o militante Anísio Dário.[2] Em 1952, em plena efervescência da guerra fria entre URSS x EUA, o núcleo comunista de Itabaiana é reprimido, sendo todos os seus integrantes presos e processados. Renato Mazze Lucas, que já havia sido preso várias vezes, desta vez chegou a permanecer na penitenciária por mais de onze meses. Após está prisão, por decisão de foro íntimo, deixou a militância do Partido Comunista.
Em 1955 a convite do amigo Dr. José Machado de Souza, Renato juntamente com a família veio morar em Aracaju, sendo nomeado alienista-assistente e indo trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas, chegando mais tarde ao posto de diretor. No governo de Leandro Maynard Maciel (1955-1959) assume a direção do hospital psiquiátrico Adauto Botelho. Um ano depois fez o curso de Psiquiatria e Higiene Mental no Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro, concluindo assim, sua especialização.
Mesmo sendo um médico de reconhecida competência, testemunhas afirmam que se percebia nele um certo desestimulo pelo exercício da profissão. Não concordava com a utilização dos métodos adotados pela psiquiatria.
Academia de Letras
Em 1967, Renato Mazze Lucas, ocupou a vaga da cadeira nº 12 da Academia Sergipana de Letras, deixada por Mons. Carlos Costa, cujo patrono é Severiano Cardoso. Com a velhice, engordou demasiado, o que lhe obrigava a um regime alimentar duro e a operações melindrosas. O escritor sergipano faleceu inesperadamente aos 66 anos de idade, em 13 de dezembro de 1985, embora nesses últimos anos, vivesse doente e solitário, pouco se tratando ou cuidando. Há exatamente vinte nove anos, seu corpo fora encontrado ao amanhece da sexta-feira treze, por dona Adélia. O atestado de óbito registrou acidente vascular cerebral, como causa do óbito. Renato colaborou em vários jornais e revistas: Época (SE); O Momento (SE); Folha Popular; Alvorada (SE); Revista Aracaju (SE); Revista da Academia Sergipana de Letras e deixou um livro de contos inédito, “O Tempo e o Homem”.
[1] Concorreram pelo Partido Comunista Brasileiro trinta e dois candidatos a uma vaga no Legislativo do Estado de Sergipe, sendo eleito um único candidato Armando Domingues da Silva, com 657 votos.
[2] Em homenagem ao líder morto Anísio Dário, Renato Mazze Lucas colocou o nome do seu segundo filho, hoje dentista do IPES – Instituto de Previdência do Estado de Sergipe. Ver Anísio Dário – a chacina da Rua João Pessoa, Gilfrancisco. Aracaju. Edições GFS, 2022.
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Jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Associação Sergipana de Imprensa – ASI, do Grupo Plena/CNPq/UFS e do GPCIR/CNPq/UFS. Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Sergipe –gilfrancisco.santos@gmail.com

