A Feira de Santana da minha infância era o pregão de rua, no começo da manhã, na voz grave de Noratinho da Pamonha. Eram os malucos – naquela época não havia o politicamente correto “portador de deficiência mental” – como Doidinho do Camisão, soltos nas ruas (ainda não existia tratamento antimanicomial) ou de volta à Colônia (Lopes Rodrigues), pedindo cigarro; era jogar pedra na caixa d’água do Pilão para ouvir o “plinc” metálico; descer de patinete (uma tábua com quatro rolimãs embaixo) o passeio enladeirado da Estação Rodoviária; eram a matinê dominical do Cine Íris, com dois filmes, de faroeste, outro de Sansão, Hércules, Tarzan, Masciste, Santos, o Máscara de Prata, ou ainda de Kung Fu ,e jogar bola na Brasília. Ah, e a Feira do Livre, esse grande e sortido Empório do Sertão!
Um pouco desta cidade, de seu um passado quase mítico, está presente no livro de crônicas de Luís Pimentel, O carioca de Feira de Santana. Jornalista tarimbado e escritor profícuo, como muitos nordestinos pobres, Luís Pimentel migrou muito jovem para o então demograficamente chamado Sul Maravilha, justamente para o Rio de Janeiro, onde mourejou bastante e terminou acolhido por uma turma da pesada, a do icônico Pasquim. Ali fez amizades no jornalismo, na literatura, no samba e no futebol. Virou flamenguista de coração, mas nunca esqueceu o Fluminense de Feira e o Bahia.
Em O Carioca de Feira de Santana – essa Babel do Comércio e Babilônia de gente de todas as regiões do país – lemos a admiração do autor por artistas da Bahia, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Dorival Caimmy e o infausto Assis Valente, que escapou do suicídio duas vezes, até conseguir se matar na terceira vez. E também o sambista Oscar Penha, o Batatinha, gráfico de profissão e bamba do samba refinado.
Na emocionante crônica “Garrincha na minha infância”, Luís Pimentel conta seu encontro com um dos maiores jogadores do país, driblador nato, de infernizar qualquer defesa, deixando basques os torcedores nas arquibancadas das Copas do Mundo de 1958 1962. Foi durante uma excursão pelo Nordeste do Clube de Regatas Flamengo.
O menino pobre vendia laranjas na entrada do Estádio Joia da Princesa, em Feira de Santana, e teve o seu alumbramento: “Ao vê-lo descer do ônibus na porta do estádio, abandonei o cesto de laranjas e me pendurei na mão do anjo de pernas tortas, que caminhou devagarzinho ao meu lado até o portão de entrada dos atletas. Despediu-se de mim e de outros meninos que o cercavam com um sorriso que jamais esqueci.”
UM DESFILE (DOLOROSAMENTE) INESQUECÍVEL
Como não ter pena do menino de 9 anos, todo garboso no engomado uniforme escolar (calça cáqui e camisa curta) para o seu primeiro desfile de 7 de Setembro, em 1962? Tudo caminhava bem para o menino orgulhoso de seu traje da escola , até que os sapatos novos lhe fizessem calos e o impedissem de continuar a marcha cívica, num vexame exagerado pelas lentes mais sensíveis da infância.
Há espaço para causos hilários, como o do “craque” de bola, Badico que fez feio no timão do Flamengo dos anos 70, mas jamais perdeu o rebolado. Como também não perdeu a ginga, o feirense Belarmino, O Carioca de Feira de Santana, tentando repetir o sucesso de Dorival Caimmy, com suas composições que passaram despercebidas por todos. Resumo da ópera: teve que retornar para Feira de Santana, mas não esqueceu a presepada. voltou tirando onda e falando com o chiado carioquês: ceeeerrrvecha, mermão, Mengô, futibó, feixoada, Porto Seix.
Um das crônicas é dedicada ao artista plástico, arquiteto e poeta Juraci Dórea, que saiu de Feira de Santana para a Bienal de Veneza, quando em meados dos anos 80, através do Projeto Terra, fincou esculturas em couro no sertão de Monte Santo, elevando o patamar da arte pública e do museu ao ar livre.
A Feira livre, no centro da cidade, também não foi esquecida. Luís Pimentel conta suas peripécias de menino entre as barracas, as mercadorias e os feirantes, “vendendo bugigangas que iam de palha de aço a caixas de fósforos”, para ganhar alguns trocados. “Eu gostava de pensar que já era um homenzinho, porque trabalhava para ajudar (ou, pelo menos não onera, minha mãe). Mas gostava, mesmo, era de deixar a caixa de mercadorias sob os cuidados de algum feirante para seguir os passos do cordelista Rodolfo Coelho Cavalcanti.
Há décadas no Rio de Janeiro, Luís Pimentel sempre carregou, na alma de pasto ensolarado e no espírito de couro resistente, o estandarte escaldante do sertão.
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Escritor e jornalista/Foto: Maria Cecília