Por Bárbara Santos
Vivemos em um mundo saturado de imagens, vigilância, controle e autocobrança, mas que exige corpos cada vez mais esvaziados. Cresce a demanda pelo controle da alimentação e da fome e qualquer “excesso” que apareça no corpo vira rapidamente alvo de insatisfação. O peso já não está apenas no prato ou na balança, mas na relação que estamos construindo com o corpo e com a comida.
O filme ‘O mínimo para viver’ (2017), dirigido por Marti Noxon, é um espelho preciso desse cenário. Não se trata apenas de uma película sobre anorexia, mas sobre o excesso: o excesso de controle, de rigidez, de autocobrança. A protagonista leva ao limite uma exigência que não é individual, mas cultural. Nesse sentido, a obra cinematográfica fala menos de uma patologia isolada e mais de um modo de viver contemporâneo.
Vivemos em tempos de performance. O ideal de corpo hoje é apresentado como produtivo, eficiente, magro e musculoso. Para sustentá-lo, naturalizamos rotinas paradoxais: doses diárias de pré-treino e intra treino para manter o rendimento, seguidas de melatonina ou remédios para dormir. Afinal, como desligar depois de tanta cafeína? O corpo precisa funcionar, mesmo que à custa de silenciar seus próprios sinais.
Nesse contexto, o que dizer das canetas emagrecedoras que prometem eliminar a fome? A fome deixa de ser uma experiência corporal, cultural e subjetiva para se tornar uma ameaça. Algo a ser dominado. As pacientes com anorexia nos ensinam muito sobre esse domínio: rituais rígidos, contagem obsessiva de calorias, controle minucioso da ingestão. No filme — e na vida cotidiana — elas aparecem como o retrato em cores mais fortes do que estamos vivendo coletivamente.
Não é difícil reconhecer esses comportamentos no dia a dia: pessoas fotografando refeições para registrar calorias e proteínas em aplicativos, ou fazendo exercícios compensatórios para “poder comer”. O famoso “tá pago!” virou expressão comum. São práticas cada vez mais normalizadas. Estar no controle seria uma nova tentativa de fazer o mal-estar desaparecer?
As redes sociais ampliam esse cenário. São repletas de dicas, regras e recomendações sobre o que fazer — e o que não fazer — com o corpo. Influenciadores divulgam um ‘lifestyle’ associado à saúde e ao bem-estar, mas nessa equação o olhar do outro é central. Mesmo quando não há ninguém observando, há sempre um outro internalizado dizendo como se deve viver. O estilo, que poderia expressar a singularidade de cada um, transforma-se em modelo a ser seguido. Um ideal que exclui.
O mínimo para viver revela, assim, a luta entre responder às demandas do outro e sustentar um modo próprio de existir. Talvez a questão não seja apenas o controle do corpo, mas o preço que se paga quando viver à própria maneira se torna excessivamente difícil.
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Psicóloga e coordenadora do Programa de Transtorno Alimentar e Obesidade da Clínica Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria
