Por Milena Mercês
“Sinto que sou um quebra-cabeça, mas as peças não se encaixam e sinto que nunca vão se encaixar.” — Edward Gein
A série Monstro – A História de Ed Gein propõe uma reflexão incômoda sobre sofrimento psíquico, isolamento e o limite entre realidade e delírio. A narrativa nos permite observar como relações familiares, crenças rígidas e ausência de escuta podem afetar profundamente a saúde mental de um indivíduo.
Desde cedo, Ed Gein viveu sob o domínio da mãe, Augusta — figura autoritária, religiosa e controladora. A relação entre os dois ultrapassa os limites da proximidade e se transforma em fusão. Edward, reprimido e obediente, não encontra espaço para construir uma identidade própria. Quando o desejo da mãe ocupa todo o campo, o dele não encontra saída e a fantasia se torna o único território possível.
Após a morte do irmão, e mais tarde a da mãe, a realidade de Ed começa a ruir. Sem o suporte simbólico que organizava sua vida, ele mergulha em um mundo fragmentado. As alucinações e delírios ganham força. Seus atos — como exumações, feminicídios e a criação de objetos com restos mortais — chocam pela brutalidade, mas também revelam tentativas de dar forma ao que não pôde ser simbolizado.
Vestir-se com pele humana pode ser lido como um gesto desesperado de identificação: querer ser, habitar ou se aproximar da figura feminina — não necessariamente por desejo sexual, mas por tentar, de algum modo, se recompor. Um corpo despedaçado tentando, simbolicamente, se costurar.
Mesmo após a morte da mãe, Ed mantém sua presença viva dentro de casa. Posteriormente, transfere sua fixação para Adeline Watkins, mulher com traços semelhantes à figura materna. O passado se repete.
Considerado “louco” e, portanto, inimputável, Ed foi internado em um hospital psiquiátrico por décadas. Lá, com tratamento e escuta, conseguiu alguma diferenciação entre delírio e realidade. Ainda assim, questionava o sentido da internação prolongada, que via como punição disfarçada de cuidado.
Hoje, a internação psiquiátrica deve ser um recurso terapêutico em situações de crise, não um destino final. É espaço de cuidado intensivo, reorganização subjetiva e, sempre que possível, reinserção social.
A série nos desafia: até que ponto enxergamos o sujeito por trás do rótulo de “monstro”? Ed Gein não é apenas um caso extremo — ele também representa o silêncio e a dor de muitos que nunca tiveram voz.
E, afinal, quem são os verdadeiros monstros que habitam entre nós?
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Psicóloga da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria
