Por Laís Tarragô
Trabalho em uma residência terapêutica. É uma casa. Tem rotina, tem café passado na hora, tem televisão ligada na sala, tem conversa no corredor. É um lugar de cuidado, mas, antes de tudo, é moradia. É vida acontecendo nos detalhes: no cheiro do almoço, na organização dos quartos, nas pequenas discussões e reconciliações do cotidiano.
E, como em toda casa, um dia a morte pode entrar.
Quase nunca falamos sobre isso. Quando pensamos em morte, pensamos em hospital, em sons de monitor, em UTI, em corredores frios e técnicos. Pouca gente imagina que ela também acontece em casas onde vivem pessoas com transtornos mentais graves, acompanhadas por equipes de saúde, em ambientes que são, acima de tudo, lares.
Mas acontece.
Quando acontece, não é apenas um dado clínico ou o registro de um óbito. É um quarto vazio. Um nome que deixa de ser chamado. Uma cadeira que sobra à mesa do jantar. O controle da televisão que já não muda de mãos. A rotina se reorganiza em torno de uma ausência concreta.
Vivenciamos isso algumas vezes. E, toda vez, a casa inteira sente.
Os outros moradores perguntam o que aconteceu. Alguns ficam em silêncio, elaborando à sua maneira. Outros falam sobre suas próprias mortes, seus medos, suas lembranças. Há quem queira detalhes; há quem apenas precise confirmar que continua seguro. Cada um reage a partir de sua própria história.
A equipe também sente. Seguimos organizando as rotinas de cuidado, conduzindo atividades, sustentando o tratamento. Mas algo muda no ar. O silêncio circula diferente. Continuamos sendo apoio mesmo quando também estamos em luto. Não somos apenas técnicos executando protocolos; somos pessoas que convivem, que escutam histórias, que constroem vínculos reais.
A morte, em uma residência terapêutica, nos convoca a fazer o que muitas vezes evitamos: conversar sobre finitude. Explicar de forma clara e respeitosa, com cuidado. Acolher reações diversas. Dar espaço para o luto, mesmo quando ele se manifesta de forma desorganizada, silenciosa ou dolorosa.
Não existe protocolo que dê conta da morte. Existe preparo, responsabilidade, compromisso ético. Mas existe, principalmente, humanidade.
Aprendemos que o cuidado não termina no último dia de vida. Ele continua na maneira como comunicamos a perda. Na forma como organizamos o quarto e lidamos com os pertences. No respeito ao tempo de cada morador para compreender o que aconteceu. No acolhimento às famílias e também à própria equipe.
Aprendemos que falar sobre morte não enfraquece uma instituição. Pelo contrário: mostra maturidade. Mostra que o cuidado é integral — do cotidiano simples aos momentos mais difíceis.
Em uma residência terapêutica, a morte atravessa o café da manhã do dia seguinte. Ela aparece na ausência que se repete. Ela nos lembra que ali é uma casa de vida real.
E talvez seja justamente isso que nos ensine tanto: cuidar é permanecer quando o fim chega porque a morte pode entrar pela porta, mas a dignidade e o cuidado precisam ser garantidos até o último instante.
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Enfermeira e coordenadora da enfermagem da residência terapêutica da Holiste / @holistepsiquiatria

