Por Mariana Pinheiro
Uma nova ‘trend’ nas redes sociais tem ganhado significativo destaque: “caso ela diga não”. Vídeos curtos mostram homens, de diferentes idades, encenando pedidos às suas parceiras amorosas e reagindo com agressões – socos, tapas, chutes e facadas – caso elas digam não. As cenas fazem uma apologia explícita à violência contra a mulher dentro de um enquadre de “comédia” e “entretenimento”. Esses vídeos viralizaram, tomando grande proporção midiática, o que nos leva a questionar sobre qual tipo de conteúdo está sendo consumido e o que isso reflete sobre as formas de relação ainda vigentes.
Os padrões presentes na forma de se relacionar são diretamente influenciados pelos aspectos sociais e culturais de uma sociedade. A circulação de cenas, em um contexto amoroso, que legitimam comportamentos agressivos direcionados às mulheres revela um grave sintoma social. Esse tipo de conteúdo reforça um lugar de poder historicamente direcionado aos homens, como se seus desejos não pudessem ser barrados ou confrontados por uma mulher, especialmente por aquela com quem ele se relaciona.
O “não” representa uma importante fronteira relacional. Ele marca a autonomia e o direito das mulheres ou homens à manifestação dos próprios desejos, limites e formas de sentir, pensar e agir, que podem – e devem – se diferenciar das pessoas com quem estes se relacionam. Quando há violência, não há espaço para acordos e nem reconhecimento das distinções. Há uma premissa importante na construção de relações saudáveis: o diálogo e as negociações constantes entre os pares. Essa dinâmica possibilita a construção de um “nós” que não anule os contornos de cada “eu”, mas que possa se formar também a partir dessas diferenças.
Quando esse limite relacional é expresso por uma mulher, a reação encenada nos vídeos ilustra a concepção de relações organizadas por hierarquias e padrões rígidos, nas quais a supremacia do querer ainda é direcionada aos homens. Esse cenário reflete um sistema cultural e social machista, no qual a violência aparece como ferramenta de controle e dominação, utilizada para manter modelos relacionais desiguais e violentos, em nome de um suposto “amor”.
Essa ‘trend’ funciona como um retrato social e nos convida a refletir sobre quais têm sido os parâmetros que orientam nossos conceitos e experiências nas relações e como influenciam, e são influenciados, pela saúde mental. Os modelos de relação e seus efeitos adentram os espaços de cuidado de diversas formas, sejam eles direcionados aos indivíduos, casais e famílias. Refletir sobre o reconhecimento de limites, desejos, direitos e desigualdades de gênero é parte do caminho para a construção de relações que possibilitem o respeito, em sua integralidade, como condição fundamental para o encontro com o outro.
Segundo bell hooks, o amor é sinônimo de ação; um ato de vontade, isto é, tanto uma intenção quanto uma ação, que nos direciona à busca pelo crescimento próprio e de outras pessoas. Quando naturalizamos atos de violência dentro de relacionamentos, contribuímos para o entendimento e a prática do amor opostos à sua primazia.
Um questionamento importante pode apontar caminhos possíveis: quando a violência contra a mulher se torna uma ‘trend’, o que isso revela sobre o modo como estamos aprendendo e ensinando a nos relacionar?
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Psicóloga do Programa de Sexualidade e Saúde Emocional da Holiste Psiquiatria / @holistepsiquiatria
Foto: Joilson Pereira – Divulgação


