O que os psiquiatras (ainda) não contam: reflexões sobre medicalização e escuta

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Por Leonardo Araújo

No primeiro dia da residência em psiquiatria, eu e meus colegas fomos surpreendidos por uma pergunta aparentemente simples: “Por que psiquiatria?”. O silêncio constrangedor tomou conta da sala. A preceptora, sensível ao nosso desconforto, quebrou o gelo compartilhando algo pessoal: “Meu filho me perguntou o que um psiquiatra faz. Respondi que é um médico que pode perguntar qualquer coisa. Escolhi a psiquiatria porque gosto de perguntar sobre tudo”.  Com isso, ganhamos uma verdadeira aula sobre escuta e psicopatologia — muito antes dos livros.

A formação em psiquiatria se mostrou uma prática contínua de interesse genuíno pelo outro, por histórias que jamais caberiam em manuais diagnósticos. Foi com esse olhar que me deparei com o livro “O que os psiquiatras não contam”, de Juliana Belo Diniz. A leitura provocou em mim uma reflexão: o que eu, de fato, estaria omitindo dos meus pacientes?

A autora percorre a trajetória da saúde mental com precisão técnica e sensibilidade histórica, abordando desde o surgimento dos psicotrópicos até os desafios atuais da psiquiatria biológica. Ela evita discursos polarizados, propondo uma análise crítica e madura, especialmente sobre a eficácia limitada dos tratamentos para depressão e ansiedade, a frustração com os exames inconclusivos e a busca ainda estéril por biomarcadores do sofrimento psíquico.

Diniz também alerta para o risco da transformação da saúde mental em mercadoria, sobretudo no pós-pandemia. A promessa de felicidade em cápsulas foi amplamente comprada pela sociedade da performance, que tenta resolver o sofrimento com fórmulas prontas. Reduzir questões humanas complexas a desequilíbrios de neurotransmissores promoveu o mito de que pílulas curariam a tristeza, a insônia, o tédio e até a baixa autoestima — tudo a gosto do freguês.

Nas redes sociais, o discurso se banalizou. Transtornos viraram marcas identitárias e disputas de dor foram metrificadas pela dosagem de antidepressivos. O sofrimento virou espetáculo. Essa infantilização emocional revela uma sociedade com estrutura psíquica frágil, que evita enfrentar frustrações e terceiriza a responsabilidade pela própria saúde.

A autora não condena o uso de medicações — pelo contrário, reconhece sua importância. Mas defende que seu uso parta de diagnósticos éticos, baseados em escuta qualificada, e não de um “checklist de rede social”. A saúde mental exige diálogo honesto entre paciente e terapeuta, com expectativas alinhadas e foco na mudança de hábitos. Medicamentos podem ajudar, mas não resolvem tudo.

Essa leitura é um convite à escuta real, ao vínculo terapêutico e à responsabilidade compartilhada porque o sofrimento humano, afinal, não cabe em protocolos — e muito menos em pílulas. Leitura mais que recomendada.
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Médico Psiquiatra da Clínica Holiste / @holistepsiquiatria