“Uma mulher, um homem, um negro”, e mais um comentário racista aqui no Planeta

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Por Zulu Araújo

Daqui a algumas semanas estaremos celebrando 138 anos da Abolição da Escravatura no Brasil, mas no imaginário a sociedade brasileira, continuamos transitando entre a servidão e a ameaça. Melhor dizendo, entre a mãe preta e o suspeito padrão.

A “mãe preta” que simboliza o arquétipo da mulher negra que amamentou, no período escravocrata, os filhos da casa-grande, hoje está travestida como a “babá de confiança”, a “tia da cantina” ou a “empregada que é quase da família”. É o afeto mediado pela servidão.

Tem sido também o espaço da visibilidade consentida, onde o afeto a mulher negra está condicionado ao bem servir, ao bem cuidar, ao bem tratar – o branco. Mas, não precisa muito, para que a situação alcance rapidamente outro patamar – o do “suspeito padrão”.

Para tanto, basta que um corpo negro transite por um espaço que não seja de submissão que imediatamente o “alarme” racial dispara. A médica negra é confundida como técnica de enfermagem, o jovem de boné no shopping é seguido pelo segurança, um homem negro de terno é indagado – “O senhor trabalha aqui?”.

Parece coisa do acaso. Mas não é!

Esses hábitos discriminatórios, possuem cor, CPF, endereço e condenação prévia. Isso porque, o Estado em particular e boa parte da sociedade brasileira, ainda opera com a lógica do capitão do mato: negro fora do seu lugar é negro a ser contido. Os números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública não mentem: 83,1% dos mortos pela polícia em 2024 eram negros.

Navegando entre esses dois polos – servidão e suspeição, a população negra, vive hoje, um vácuo. Um vácuo de autoridade intelectual, de poder de decisão. Um vácuo de cidadania.

Apesar de todos os avanços que a população negra vem tendo nos últimos anos, graças a luta e a determinação de suas organizações e lideranças, bem como dos seus aliados, a cidadania plena ainda é um espaço interditado.

A prova mais evidente nesse sentido é quando uma mulher negra ou um homem negro chega à reitoria de uma universidade no Brasil, a presidência de uma grande empresa ou um cargo no STF. O caso quase sempre é tratado como se fosse uma anomalia.

Um exemplo eloquente neste aspecto foi o comentário da jornalista da Rede Globo, Marina Franceschini, ao destacar a diversidade na missão Artemis II, à Lua, no programa Globo News, afirmando que a tripulação da navae incluía: “um homem, um negro e uma mulher”.

Ou seja, para a jornalista, a presença de um “homem negro” (Victor Glover – piloto) – na missão, era tão inusitada que ele foi desumanizado. Interditou-se não apenas o espaço que ele ocupava, mas a sua própria condição humana.

sse é o preço que pagamos pelo mito da democracia racial: você pode entrar, desde que deixe sua negritude na porta. E o mais perverso nessa situação é que tratar do tema, chamar a atenção para o racismo presente na frase, deixa de ser algo educativo e de alerta e passa a ser tratado como “mimimi”, “vitimismo”, alimentando mais ainda a discriminação.

Portanto, não há saída individual para a superação da questão racial no Brasil. Não adianta apenas “se esforçar mais” ou “embranquecer” para atender aos requisitos da branquitude.

Precisamos sim, é de ter a coragem para nomear esses hábitos, chamá-los pelo nome correto: racismo e entender que representatividade não é caridade e que nosso lugar vai muito além de dar “colo” para os filhos da casa-grande, ou ir pro “camburão”.

Toca a zabumba que a terra é nossa!
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Arquiteto, Mestre em Cultura e Sociedade e Doutor em Relações Internacionais pela UFBA. Ex-presidente da Fundação Palmares.