O que a Bahia elege quando vai às urnas

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Por Victor Pinto

Existem cenários e perspectivas que fazemos para cada eleição, mas que só temos resposta depois, quando o eleitor responde nas urnas sem, às vezes, nunca tê-la formulado conscientemente: quando votamos, estamos escolhendo um líder ou um gestor? São coisas diferentes. E a Bahia, com sua história política rica e contraditória, é um laboratório privilegiado para entender essa distinção.

A gente aprende que o líder mobiliza, cria identidade, gera pertencimento, move multidões. Já o gestor entrega, organiza, prioriza, resolve. O ideal seria que os dois habitassem o mesmo corpo. Mas na política real, especialmente na política baiana, essa combinação é rara.

Repare bem: Antonio Carlos Magalhães foi, antes de qualquer coisa, um líder. Suas entregas eram reais e, gostando dele ou não, a Bahia se modernizou sob suas gestões, mas o que o manteve no poder por décadas não foi o hospital construído nem a estrada inaugurada. Na minha opinião foi a narrativa. Foi a capacidade de fazer o eleitor sentir que pertencia a algo maior. ACM não governava a Bahia, ele demonstrava ser a própria Bahia, principalmente na percepção de quem o votava.

Lula tem esse mesmo talento em escala nacional e a Bahia responde a ele como poucos estados. Não por acaso, sua aprovação aqui supera consistentemente a média nacional. O eleitor baiano tem uma relação afetiva com lideranças que falam sua língua emocional.

Jerônimo Rodrigues chegou ao governo como gestor, um técnico, discreto, sem o carisma explosivo de seus antecessores petistas. Suas viagens ao interior, os hospitais regionais entregues, os números da educação são argumentos de gestão. Mas o desafio dele em 2026 é traduzir carisma em gestão e também liderança. Rui sempre foi muito próprio da gestão e isso o credenciou. Jaques Wagner foi o carismático. Paulo Souto e César Borges tinham visões do tecnicismo, mas se aproveitavam da liderança de ACM, o original.

ACM Neto trilha outro caminho. É um líder nato, comunicador habilidoso, com presença que domina palanques, mas sua gestão à frente de Salvador, embora competente em vários aspectos, nunca gerou o tipo de legado emocional que seu avô construiu numa percepção que contagiasse de fato toda a Bahia. Lidera bem. Mas ainda busca uma narrativa que o defina além da oposição.

A Bahia, como o Brasil, elege muito mais com o coração do que com a razão. Liderança vence gestão quase sempre. O desafio do bom político é aprender a ser os dois ao mesmo tempo. Poucos conseguem. Os que conseguem, ficam na história. A conferir.